Ajeitou o pano de prato no puxador do fogão de forma que a vira do bordado ficasse para fora com as pontas dobradas do mesmo tamanho. Nesse gesto, repetido ao longo do dia, a vida inteira, ninguém tinha reparado. Era um capricho com ela mesma, o de manter o pano alinhado como quem checa de vez em quando o cabelo ou o brinco na orelha, ou ainda, uma mania curta, um jeito de pontuar as suas atividades na cozinha, devolvendo involuntariamente o pano estendido a cada uso até o próximo movimento. Foi só muitos anos depois, quando a criança veio com a mãozinha esticar o pano, que a tia se deu conta, riu e falou alto, gente, ela faz igualzinho à mamãe! O que a menina buscava era ver o desenho todo pintado no tecido, a cena da fazenda com a vaca e o bezerrinho, o homem de chapéu no cavalo e o cachorro sorrindo. Não havia nenhuma intenção vaidosa, nenhum traço de cuidado na cozinha, ao contrário, era a história longe dali que ela queria e ninguém entendeu. Fez que achou graça também e voltou o pensamento para a bisavó, de quem ouvia falar ou se dava conta da existência pela primeira vez. Quem seria a mãe da tia? De excitação, chacoalhou o corpo. Que maravilha! Quantas incontáveis histórias em quantos panos ela teria conhecido! Eu e a mãe da tia, nós duas, o nosso segredo escondido, decifrado, bordado nas figuras dos panos de prato! Voou para a gaveta.
Naquele dia, lá atrás, era um peixe que a bisavó preparava. Foi pescado no açude e, apesar da água escurecida pelo barro que veio com a chuva, tinha a pele clara e a carne cor de rosa. Cheirou. Não era por ser peixe. Cheirava o que lhe caía às mãos, o opaco, um livro, uma tesoura, uma caixa de papelão. Só para provocar a memória. Abriu, limpou, acomodou o almoço de olho arregalado na travessa. O olho imóvel do bicho parou os olhos dela também. Entre dormindo e acordados, fixos no nada. Lembrou-se de quando era pequena e viu um peixe boiando no rio, a barriga inchada. Mostrou para o pai. Está morto, respondeu. Morto de quê, se não o pescaram? De velho, uai. E existe peixe velho? Pensou, mas não ousou retrucar. Foram muitos dias e noites povoadas de peixes velhos, arqueados, com barbatanas brancas e olhar cansado de peixe quase morto. Chacoalhou o corpo. Lavou as mãos, cheirou, ajeitou o cabelo e o pano de prato na porta do fogão.