Aos 79, a tia acaba de voltar da excursão à Aparecida do Norte. Veio com terço perfumado, água benta em vidros de tamanhos variados, CD autografado do padre cantor e a Nossa Senhora negra, padroeira do Brasil, num modelo mais moderno, feita a partir de material reciclado, a capa azul em palha natural. Já tive imagens mais bonitas, observou com a santa na mão. Assistiu nove missas em dois dias. Está empolgadíssima, ocupando-se agora da organização da próxima saída do grupo para um santuário em Goiás, o do Pai Eterno. A tia tem convicções rigorosas. Esquecida da sombrinha, chegou da rua encharcada de chuva. E por que não correu? Eu, uma mulher casada, correndo na rua? Alguém queria notícias da vizinha, viúva recente. Ela respondeu irônica, sem tirar os olhos do escorredor: Deve estar bem, a frente da casa está toda enfeitada para o Natal… Na véspera da viagem à Aparecida, foi ao salão de beleza tingir o cabelo e fazer as unhas. Instalado nos fundos da casa da proprietária, o salão acolhe domesticamente as clientes. O tanque que lava a roupa da família é o mesmo que recebe a cabeça das freguesas, lado a lado estão a mesinha da manicure e a de passar roupa. Há anos, a tia frequenta o quintal da Zilú, 68, colega de novena e de grupo de bordado. Na intimidade entre elas cabe a inusitada situação da tia ficar sozinha com tinta no cabelo esperando a Zilú dar um pulo na catedral para participar de um terço e voltar a tempo de terminar o serviço. Pode fazer um café, se estiver com frio, comadre. Compartilham, entre outros, a fé nos desígnios de Deus, o que tiver que ser, será, há que se acatar com resignação. E foram, ambas, postas à prova no dia da visita do Roliudi (Santiago Filho) ao salão. Estavam lá, a tia e outras senhoras da fina sociedade local, quando adentrou o cinquentão playboy. O primeiro homem a visitar o quintal. Rato no galinheiro. Ajeitaram-se nas cadeiras improvisadas, puxaram as saias, abraçaram as bolsas, baixaram os olhos. Sem cerimonia, pediu à Zilú que aparasse os pêlos do nariz e ouvidos e ajeitasse as costeletas, que ele mantem longas à altura do queixo. Roliudi veio pobre do norte e ficou rico no comércio local. Gosta de carros esportivos, de moto, de roupas chamativas. A irmã, cliente do salão, foi quem sugeriu que ele procurasse a Zilú. Passado o susto inicial, a profissional concordou e atendeu com uma seriedade quase rude. Não queria que mal falassem dela por algum excesso de liberdades. Ele, então, apontou a tabela de preços afixada na parede e pediu o impedível: queria o peito e as costas depiladas com cera quente. Propôs o valor equivalente à depilação de meia perna e virilha. As senhoras, a tia incluída, fingiram que não ouviram e mantiveram o olhar firme no chão. A Zilú não podia negar. Foi em atitude compungida preparar a cera no fogão, ao lado do varal. Livrái-me de todo o mal, Senhor. Roliudi tirou a camiseta e recebeu os golpes. Primeiro na frente, depois atrás. Não gemeu, não reclamou. Podia ter sido pior, mas havia da parte dela, um cuidado escondido ali, um jeito de aliviar a dor, um acalmar a ardência. As mãos na pele. A tia se dava conta e rezava para que aquele calvário, o dela, terminasse logo. Que Deus a levasse naquele momento, já tinha vivido o suficiente. E Ele, na sua infinita misericórdia, poupou-a do constrangimento. A manicure avisou que tinha terminado o serviço, ela podia ir embora. Levantou-se chacoalhando as mãos no ar, os dedos separados em atitude pós esmalte e disparou: Zilú, estou indo para a igreja. Venha que é dia de confissão.