No sonho, uma infinidade de troncos desce as corredeiras de um rio. Alguns se enroscam em plantas verdíssimas nas margens agitando o corpo por um momento, mas a força da água os devolve para junto dos outros que, alinhados em uma jangada longuíssima e desamarrada, seguem em direção ao precipício que eu não vi, mas posso jurar que havia. Cumprem silenciosos e condescendentes o seu destino, são todos iguais, parecidos, não há o que esperar de nenhum deles. Mexo a cabeça, o travesseiro vai para o chão. Sei que é iminente o meu mergulho sem volta, sozinha, na companhia de tanta gente. Sou um tronco pendurado na beirada, metade no ar. Gosto do que vejo quando olho para trás, do que ficou para trás, o rabo do tronco apoiado na terra e mesmo do que vejo à frente, voando, sem chão. Por que não posso ficar assim é a pergunta que levanta comigo pela manhã, ainda atormentada com a terrível visão dos troncos levados pela água. Sinto raiva dessa subserviência à realidade, dessa obediência aos desmandos do tempo. Do alto, de onde assisto a cena, dentro e fora dela, considero as alternativas. O mais provável e o que já se dá, será entregar-me à lei natural, deitar-me nesse grande tapete coletivo e me deixar levar para onde, afinal, vamos todos terminar. Há uma enorme pilha de troncos úmidos, pingando, recém saídos da água, muitos outros chegando e aos poucos transformando-se em corpos velhos, sem rosto, sem referencia, sem individualidade, sem aconchego ou privacidade. Estou angustiada, aperto o maxilar a ponto de doer, e me ocorre fugir pela inventividade, pela ficção, pela negação, pela loucura, pelo sonho no sonho, tentando me convencer de que o rio me levará para o mar aberto e lá, na imensidão conhecida, boiarei feliz sob o sol até que as ondas me deixem na praia que escolherei. Mas, então, essa possibilidade vai depender da minha capacidade de defesa e não saberei mais quem sou na hora do julgamento. E minha mãe, na pilha de troncos, não intercederá por mim.