A chuva caiu sem avisar. Desceu vomitada, já com os pingos largos, num crescendo acelerado de tiroteio, estourando pipoca, jorrando-se no asfalto, não para lavar nem para refrescar, chuva de verão.

Apertamos o passo abrindo as pernas para saltar as poças e recolhendo depois para recuperar o equilíbrio na chegada, olhos pregados no chão, segurando a bolsa, a saia, tentando ser civilizados, com vontade de sair correndo feito gato assustado.

Um carrinho de bebê me ultrapassou pela direita na maior velocidade, joguei o corpo para o lado, encostei de leve numa senhora que caminhava altiva tentando manter a dignidade que a idade exigia, pedi desculpas para outra, aquela já ficara para trás, ninguém pensou no guarda-chuva, foi traição do tempo na cara dura.

O mendigo com a cama desfeita, distribuía papelão. Esticava a mão e, na correria, quem pôde pegou. Não sei como a coisa começou, se foi gente tirando lasquinha da sua pobreza ou se foi ele mesmo que, por um momento, quis sentir-se importante. Postou-se ao lado da banca com um ar quase profissional, como se não houvesse coisa mais séria no mundo e ficou ali descalço, encharcado, trabalhando, entregando papelão.

Muita gente pegava e saía rindo sozinho com aquele guarda-chuva improvisado, feito menino fazendo coisa escondida, excitado, contaminado pela farra do momento.

Tão rápido quanto chegou, o aguaceiro foi embora. Parou de vez, nem um pingo a mais, nem um chorinho. Ainda vi o homem de longe, parado na calçada, a sua figura magra contra o sol, voltando a ser mendigo.