Ele surgiu de repente na minha tela. Estava deitado, sorridente, de avental verde, o soro pingando ao lado, fazendo um sinal de positivo com o dedo. Sempre foi assim, bem humorado apesar da desgraceira que era a nossa vida de jornalista. A última vez que o vi, há muito tempo, circulava pela redação olhando a gente de cima naquele tamanho todo e tão de perto quanto é possível um homem doce olhar. Nunca imaginei que nos aproximaríamos pelo Facebook, nós, os últimos defensores do papel. Fiz uma visita à sua página e entendi que estava com um câncer avançado. Escrevi começando uma conversa que só terminaria no fim da história. Seguiram-se meses de papo online ou pelo telefone sobre política, ali discordávamos, poesia, comida, futebol, aqui a gente concordava na torcida pelo timão. Todos os dias chegaram flores e músicas numa entrega digital. Eu devolvia o carinho com causos bobos para ajudar a passar o tempo entre as cochiladas induzidas pela medicação. À certa altura, ele insistiu e comecei a visitá-lo. Na primeira vez, preparei-me feito uma noiva, perfume e batom, e fui me equilibrando no salto pelo longo corredor, seguindo the yellow brick road e já querendo encontrar o caminho de casa, como Dorothy na Terra de Oz. Estava ligeiramente inclinado na cama, cheirando a sabonete. Pedi um banho antes de você chegar, justificou. Além de um urso, um dinossauro e um coração de pelúcia escrito amor, não havia mais nada naquele quarto onde a luz explodia, não escondia nada. Nossas mãos geladas de emoção. Atrapalhada, quase arranquei a agulha pregada no braço fino. Ele segurou. Falamos de comida e literatura e chegamos, claro, na Nina Horta que cozinha tudo numa panela só e então dei para ele um livro dela autografado para mim que estava na bolsa. O livro passou a ficar ao lado dos bichos e do coração de pelúcia. A enfermeira entrou, ele me apresentou como namorada. Ela sorriu com ar de compaixão e aquilo me deu um calafrio. Tive vontade de brigar com ela exigindo que o tratasse como um homem igual a qualquer outro caminhando lá fora. E fugi inventando um compromisso longe dali. Saí pensando na loucura em que estava nos metendo. Não sentia por ele nada além do amor de amigo e, no entanto, pura covardia, não o desmentia quando me chamava de namorada. Nos meses seguintes, ficamos muito próximos. Fazíamos planos ingênuos para quando ele deixasse o hospital. Tomaríamos sorvete na praça ensolarada. Eu jurando que faria e diria o que fosse necessário para mantê-lo num mundo encantado. Inventei uma missão para mim. Como ele, precisava daquilo para me sentir amada. Estava consciente de que havia um vínculo neurótico de dependência entre nós, a nossa sobrevivência.

Sempre que enfrentava algum procedimento de risco, foram tantos, ele brincava, estou oco, só não me tiram o coração por sua causa. Eu sabia que sentia medo e garantia, segura a minha mão, estou aí com você.

Às vezes, estava entubado e não podia falar. Ficava aquele silêncio desconfortável no quarto, ele sorrindo com os olhos cada vez mais fundos e arregalados, digitando no celular com dificuldade e erros que jamais cometeria, o que queria dizer. Na Páscoa, alimentado pela sonda, pediu à enfermeira que comprasse um ovo na lojinha do hospital, me fez abrir na hora e comer ali na frente dele. Eu querendo chorar, lambuzada de chocolate e ele orgulhoso de poder me dar o presente. Depois, piorou tanto que eu não queria mais ir até lá para não deixá-lo constrangido naquela condição desumana. Ou muito humana, fracos e prepotentes que somos.

Antes que eu respondesse ao seu platônico pedido de casamento, ele se foi. A irmã ligou dando os detalhes do enterro e acrescentou, ele amava muito você. E então, pensei que a gente precisa desesperadamente amar para se manter vivo. E nem assim.