Presa fora de casa numa noite de inverno em Nova York, corri para me aquecer num cinema ali perto, indiferente ao que estivesse passando. O filme vintage em cartaz, Sid and Nancy, contava a historia de um dos casais mais loucos do rock’n’roll nos anos 70. Eu conhecia os Sex Pistols de nome e sabia da fama de Sid Vicious, o desvairado ícone da cultura punk e baixista da banda. Sid estava no auge da carreira quando apaixononou-se por Nancy, uma stripper, viciada em heroína, com quem viveu momentos dramáticos à base de drogas e álcool. A intensa relação amorosa foi marcada por violência e muitos escândalos. Sid morreu aos 21 anos por overdose de heroína durante uma festa na casa da mãe quando comemoravam sua saída da cadeia onde estava preso por ter, supostamente, assassinado Nancy com uma facada no Hotel Chelsie, onde moravam. Esse é o resumo da história de amor que eu assistiria ali. O cinema estava quase vazio e decidi ir banheiro antes do filme começar. Já estava com a porta da cabine fechada quando ouvi conversas em voz alta entre várias mulheres. Não eram exatamente conversas, mas palavrões e urros de raiva que soavam como uma briga. Pelo vão embaixo da porta, pude ver coturnos pretos sobre meias arrastão sobre pernas tatuadas. Subi no vaso sanitário e fiquei quietinha ali, morrendo de medo. Elas chutavam as portas, a minha inclusive, batiam no espelho com os metais do figurino punk gritando coisas que não entendi. Achei que procuravam alguém para maltratar. Com o coração disparado, esperei que desistissem e fossem embora. Saí tentando ser invisível e voltei para o escuro da sala onde o casal protagonista se beijava com agulhas fincadas nos braços. De longe, vi a turma em suas roupas de couro, correntes, cabelo moicano, coleiras pontiagudas. Sentei-me perto de outra mulher para me sentir mais segura caso as punks voltassem ao ataque. Cinco minutos depois, a mulher colocou a mão na minha coxa e eu entendi que aquele filme não era para mim.