O caco de vidro esperava escondido na areia e entrou fundo no pézinho que desceu pelo escorregador. Não sentiu na hora e o choro só veio quando ela viu o chão sujo de sangue. Peguei com carinho e a carreguei no colo para a clínica infantil bem perto do parquinho onde íamos com frequencia, ao lado de casa, em Nova York. Não fossem os gritos dramáticos de Eu não quero morrer, por favor, não me deixe morrer, ouvidos pelo bairro todo, o percurso teria sido rápido porque a Manuela era uma menina magrelinha e leve. Para não facilitar as coisas, ela não admitia mostrar a calcinha e exigia que a todo momento eu parasse para arrumar o vestido curto amassado nos meus braços. Fomos atendidas pela Dr.Green, a pediatra responsável pelo plantão naquele dia. Era uma mulher baixinha, de cerca de 50 anos, óculos e cabelo curto, envergando um avental longo que parecia maior do que ela. A sua deselegância explicou-se quando aproximou-se para examinar o corte e percebemos que ela era corcunda. Tinha uma grave deformidade nas costas que a obrigava a andar arqueada, com um ombro bem mais alto do que o outro. Ficamos as duas surpresas e impressionadas num primeiro momento, mas ao longo da consulta em que ela limpou o ferimento e deu pontos manipulando com destreza agulha e linha sobre a pele delicada, o foco da minha atenção voltou-se para o procedimento. A Manuela, por sua vez, hipnotizada pela figura incomum da médica, já não pensava em morrer. Rostinho sujo de limpar as lágrimas com as mãos sujas, tinha outras preocupações. E me chamava querendo comentar o que eu já adivinhava e não poderia responder ali. Mammy, ela dizia, em inglês como combinado porque era indelicado com os outros conversarmos numa língua incompreensível para eles. Eu fazendo que não ouvia. But mammy… Em casa, Manu! A médica duplamente debruçada sobre ela suturando, limpando, dando acabamento. A expressão da Manuela era a de uma braveza que eu conhecia bem. Dr. Green conversava conosco ignorando a natureza da inquietação da sua pequena paciente. Terminou o atendimento, fez uma receita de antibiótico, despediu-se educada e gentil e afastou-se manquitolando pelo corredor. Mal deixamos a clínica e a Manu, empunhando o enorme curativo, disparou furiosa, agora na língua materna: Como é que você tem coragem de me trazer aqui e me entregar para uma médica que sequer sabe cuidar dela mesma?