Enquanto o amigo me esperava num restaurante bacana, de arquitetura contemporânea e cardápio refinado, entrei por engano num outro, pequeno e simples, música ranchera, sombreros nas paredes, burritos, tacos e tal. Copos com caveiras aplicadas, cactus como paliteiros. O carrinho com as inevitáveis paletas, sobremesa self service, estacionado ao lado do balcão. Uma pia entre as mesas onde, como num ritual, os frequentadores lavavam as mãos depois de comer. A garçonete pediu licença e passou pano no chão debaixo das minhas pernas.
Achei exótica a escolha do amigo e enquanto o esperava sentada ao lado de uma falsa loira tatuada do pescoço aos pés, imaginei a história que justificaria o encontro naquele lugar. A fachada discreta no centro de São Paulo reuniria sobreviventes da guerra do tráfico, o elenco de Narcos encontrando-se ali para degustar, a preços populares, a autêntica comida mexicana preparada por uma descendente da cozinheira asteca que servia a Casa Azul, de Frida Khalo e Diego Rivera. Questionei minha rigidez estética diante da decoração duvidosa do lugar incluindo o design do cardápio, um coiote uivando para as estrelas no deserto, achei que era para ser engraçado e ri e agradeci mentalmente a oportunidade de conviver com gente original e sem preconceitos como meu amigo.
Quando a Corona já estava quente, o celular tocou e a história era outra. Dessas coisas improváveis, os dois restaurantes mexicanos eram praticamente vizinhos. Vi meu amigo acenando lá fora, disfarcei e encaminhei-me constrangida para o mexicano chique.