Repórter de TV em Nova York, anos 90, me deram a pauta: “Faça uma matéria sobre um restaurante especializado em “game”. Entreviste o dono, os clientes, mostre o serviço”. Meu inglês ainda era limitado, mas o orgulho juvenil me impediu de perguntar exatamente do que se tratava. Desci com a equipe, um cinegrafista e um assistente, diante de um restaurante elegante, num endereço bacana de Manhattan. O ambiente era luxuoso, mas achei de mau gosto as cabeças de animais com aqueles olhos vitrificados e chifres enormes, distribuídas pelas paredes. O lugar estava cheio, as mesas quase todas ocupadas, muita conversa, risadas e descontração. Pensei: “Eles devem beber bastante enquanto jogam”. Procurei o proprietário, um italiano sizudo de avental e comecei a entrevista ali mesmo na cozinha: “Como é um restaurante de “games?” Ele fez um olhar surpreso e respondeu abrindo um enorme freezer: ” Isso é javali. Isso é leão. Isso é canguru…” e seguiu mostrando pedaços enormes de carne. Insisti: “Certo. Já vi  que os animais são mortos. Agora me explique como são os games”.  Perdendo a paciência que não tinha, ele me pede num sotaque carregado que vá ao salão, olhe as mesas. Saímos percorrendo o lugar, o maitre sempre colado, e entrevistando os clientes que elogiavam a comida, contavam detalhes do seu preparo, mostravam os pratos, mas “game” que é bom eu não via nenhum e devo ter demonstrado minha frustração porque, de repente, o italiano começou a gesticular de longe, chacoalhando o cardápio no ar. Nesse momento, fiz o que deveria ter feito assim que entrei no restaurante: abri o cardápio e li. O tal “game”  não era “jogo” como na tradução literal do inglês, mas “caça, animal selvagem”. O restaurante servia filé de leão, javali assado, chilli de canguru e outras bizzarices que aqueles ricos excêntricos apreciavam. Fiz um sinal aliviado para o câmera, ainda havia tempo para recomeçar. A cena do italiano apontando a geladeira aos berros ” The game is overrrr here!”  abriu a matéria, que foi ar no dia seguinte.