O locutor da radio JB anunciou às 7h da manhã que a máxima seria de 38 graus. Sugestionada pelo boletim meteorológico, senti a pressão baixar e rezei para não sermos cozidos coletivamente num ritual satânico contemporâneo. De qualquer forma, como a esportista que não sou e com o bom senso que não possuo, desconsiderei a temperatura sufocante e achei de correr na praia como faço todos os dias. Uma autêntica etíope descalça, falsa carioca de biquini, pé na areia. Meu estilo não deve ser muito convincente. Se levada a sério, os vendedores não me abordariam com biscoito Globo, picolé, queijo coalho pelo caminho. Os turistas não me parariam estendendo o celular e pedindo para fotografá-los, invariavelmente com o morro Dois Irmãos ao fundo. Não esmoreço. Depois de poucos metros percorridos, empapada de suor, entendi para que servem os cílios. Eles são a “calha” que segura o suor e o conduz para fora dos olhos de forma a não ficarmos cegos como fiquei quando a “calha” se rompeu com o excesso de transpiração. Para enxugar os olhos, esfreguei as mãos sujas de protetor solar e piorei o mal-estar. Já no meio do percurso, com os olhos ardendo e as pernas pesadas, atropelei uma mulher deitada na canga, chutei areia nela e fugi como fazem os covardes nessa situação. Segui, então, para a beira d’ água onde recuperei o equilíbrio. Podia ouvir a trilha de Carruagens de Fogo enquanto meus pés pisavam a areia molhada em câmera lenta e tentei ser elegante como os corredores na cena clássica do filme, mas isso não durou mais do que cinco minutos. Senti câimbras e terminei manquitolando e gemendo junto à rede de vôlei onde havia pendurado minha roupa e as havaianas. Quando deixei minhas coisas ali, ainda não havia ninguém na praia e como me pareceu um bom varal, seguro e discreto, engastalhei tudo na corda e fui correr. Agora a rede estava ocupada por dois times de mulheres uniformizadas, fortes e furiosas que me cortariam em pedaços só com o saque. Tentei pescar meus pertences com a pontinha dos dedos de forma discreta para não atrapalhar o embate entre o que me pareciam os times olímpicos de Cuba e China que vi na televisão e nunca esqueci tanto medo senti daquelas mulheres. Como estava cansada demais, meio trêmula pelo esforço exagerado, o gesto mal calculado fez as havaianas tomarem impulso e voarem entre as jogadoras. Num último esforço, pedindo a Deus que o jogo não parasse, me arrastei na areia quente, apanhei as sandálias e fui para o mar tentar me afogar para esquecer.