A tia está bem, comunicou minha mãe voltando da visita. Aos 98 anos, com câncer avançado, a tia passa o dia na cama. No quarto iluminado pelo janelão com batentes azuis, o sol riscando o piso, conversou e riu ao lado de uma das netas, lembrando-se de historias ingênuas da família. Despediram-se e foi só. Um dia, muitos anos antes, a tia havia me causado impressão dizendo que não desejaria jamais mudar da casa onde morava com a filha e o genro desde que ficara viúva, ainda jovem. Fui até a janela e observei o muro com telhas como um babado na borda, o mamoeiro crescido, o varal com pernas desajeitadas de bambu e o galpão lá no fundo com o fogão à lenha de onde, pequenos, tirávamos pedaços de carvão para riscar a amarelinha no cimento mal conservado do quintal. Foi como se me apontasse o passado, o presente e o futuro de uma vez só. Disse mais. Que era feliz porque podia olhar todos os dias por aquela janela. Eu vi o que ela via sem poder dizer o mesmo. Meus planos eram de paisagens diferentes e quartos virados para dentro, com romance, meia luz e camas gigantes. Ela dormia em lençóis de linho com as iniciais do enxoval bordadas, uma amarração para a vida inteira. No criado mudo, havia um terço com perfume de rosas sobre a toalha de crochê e toda noite na hora de dizer boa noite, a gente a encontrava já de camisola, com o terço nas mãos, rezando baixinho e achando tão bom estar ali! Quando minha mãe veio contando que a tia estava bem, eu sabia exatamente o que ela estava dizendo.