“Minha mala vinha deslizando lentamente pela esteira de desembarque. Era uma mala de couro antiga, do fim da década de 60, eu a tinha encontrado entre as coisas dos meus pais e me apropriei dela porque achei que se adequava ao estilo despojado que adotara naquela fase.” Esta cena de um livro de Karl Ove que estou relendo serve perfeitamente para começar o episódio que aconteceu quando eu morava em Nova York e fui, pela primeira e ultima vez, à Brasília prestar um concurso. Não sei em que momento a formação mineira pesou com força e me levou a considerar um emprego público. Coisa da minha mãe. Deve ter me botado medo do futuro incerto “no estrangeiro”. Não passei. Fiquei aliviada porque gostava de ser jornalista e não tinha nenhum plano de voltar a morar no Brasil naquele momento. No vôo para Brasília, conheci um jovem chef de cozinha francês que estava a caminho de um estágio no Club Med de Itaparica. Dessas coisas que a classe econômica raramente proporciona, o encontro aconteceu cheio de boas surpresas. Ele era lindinho, falava inglês com o sotaque francês necessário e era curiosíssimo sobre o país e a culinária brasileira. Vinha de uma experiência sofisticada trabalhando num hotel de luxo em St Barth, encantado com a cor da água e o sabor dos frutos do mar de lá. Expliquei que a Bahia era outra conversa, uma mais autentica e radical, e ele assentiu entusiasmado, estava pronto para depenar arara e assar macaco. Perguntava sobre tudo sem nenhuma vergonha de parecer ignorante e eu respondia como se tivesse sido criada no Xingu. Brasília era a escala dele e meu ponto final e estávamos naquele charme todo, trocando telefones junto à esteira, quando me dei conta da mala que tinha separado para a viagem e congelei. A verdade é que, diferente da mala do Karl Ove, a minha era de um material que me parecia papelão, amarela, caindo aos pedaços, vintage, se quisermos parecer chiques. Minha mãe tinha a frasqueira fazendo jogo. Estava cheia de apostilas para o concurso e eu planejava abandoná-la no hotel e voltar com as poucas roupas que levei numa mochila. Como não tivesse cadeado e ficasse abrindo o bico o tempo todo, deixei o insistente rapaz do aeroporto em Nova York embalar com aquele assustador plástico verde. Levando tudo isso em conta e o príncipe Louis Vuitton que eu tinha ao meu lado, decidi disfarçar e fingir que a mala não era minha. Ficamos ali um tempão, aquele casulo verde rodando sem parar, ele com horário apertado para o outro vôo. Esperei que desistisse e sumisse na curva do saguão para rapidamente laçar a mala e meter-me num taxi. Nada mais saboroso entre nós aconteceu, mas, tempos depois, em Nova York, ele à frente da cozinha de um elegante restaurante francês, desses que exigem gravata e paletó, convidou-me para conhecer seu local de trabalho. Convoquei uma amiga e adentramos a Festa de Babette. A mais longa, surpreendente e refinada refeição que fiz na vida. Nem sei quantas entradas e pratos, ante-pratos, entre-pratos e pós-pratos o colega garçon nos trouxe com piscadelas cúmplices. Tivemos medo da conta que, afinal, não pagamos. Depois, embriagadas de diferentes cores de vinhos, fomos chamadas para visitar a cozinha, ele nos esperando sorridente, tão charmoso de avental e chapéu de cozinheiro, falando num português ininteligível, exibindo-se para os colegas. Ganhamos um champanhe e uma caixa com mini macarons cada. Tudo isso, estou segura, porque ele nunca viu a mala.