Estendia a roupa no varal. Se passasse um enterro, e a casa estava plantada nos arredores do cemitério, recolhia e lavava tudo novamente. A vizinhança conhecia bem Dona Vida, Euvídia, na certidão, e suas cismas. Achava errado marcar hora para comer e a família se submetia às vontades do estômago dela, almoço de manhã ou no meio da tarde, jantar à luz do dia ou meia-noite. O primeiro café do dia, ela passava e em seguida, ainda quente, dispensava na terra do quintal. A vida toda. E desdobrava as manias. O marido, que só ligava o carro quando os dois bancos, motorista e passageiro, estavam perfeitamente alinhados, exigia couve todo dia, rasgada numa refeição, cortada fininho na outra. As crianças cresceram na casa que queimava. Pintada de amarelo, quando batia o sol, acendia o bairro inteiro. Todo ano, separavam parte das economias, compravam tintas com uma pitada de ouro e incendiavam o lar. A história começou antes, dizem, com a avó que teve um mal-estar, caiu e morreu queimada no tacho de goiabada fervendo. A menina assistiu tudo e tomou licença para o que teve vontade na vida. Nunca usou sapato nem andou com o pé inteiro no chão. Era descalça ou de chinelo, sempre na ponta, o resto do pé para o alto num salto invisível, ela esticada não querendo compromisso com a realidade. Vivia na igreja, nave mãe adotiva, admirada dos seus sons internos, ecos, sinos, cânticos, cochichos e rezas, a palavra cantada das missas. Com os domingos vinha a cerimonia dos anjos, recém-nascidos que morriam antes de serem batizados e eram absolvidos dos pecados originais pelo padre para garantir-lhes um lugar no céu. Levados em caixõezinhos brancos do tamanho de caixas de sapato, muitas vezes, os bebês eram fotografados na porta da igreja, geralmente rodeados pela família e por crianças que estivessem ali brincando e quisessem participar. Vida uma delas. Muita gente guardou a lembrança daquele dia triste em fotos lavadas onde apareciam vestindo suas melhores roupas, com olhares vazios, ao lado da menina sorridente na ponta dos pés. Mais tarde, já esquecida dos anjinhos, inventou de rearranjar os altares, trocando as velas de lugar, reposicionando os crucifixos, distribuindo flores que arrancava do jardim da igreja pelas toalhas brancas junto às imagens dos santos. Queria a atenção do padre por quem tinha uma atração não realizada, coisa de mocinha em ebulição, sem traquejo com os masculinos até ali. Admirava o andar altivo, as mãos brancas enlaçadas atrás do corpo, a sua autoridade e poder. Além do bigode, igual ao do pai que não conhecera pessoalmente, mas com quem conviveu num quadro pintado sobre a fotografia e emoldurado em dourado na parede da sala. Dedicava-se com destemido afinco à tarefa de  perturbar o sacerdote em sua inabalável condição de enviado de Deus. Esquecia-se de ser feliz na rua para detestar-se diariamente na presença gelada do padre. Era o cabelo excessivamente loiro e crespo? As pernas finas? Os seios ainda não crescidos, escondidos dentro do uniforme da escola? Exceto pelos estragos nos altares e no jardim, nunca foi notada por ele que, ademais, tinha olhos para outras colaboradoras mais encorpadas. Foi o primeiro de uma série de amores frustrados, vieram ou não vieram depois o médico do posto de saúde, o guarda municipal, o porteiro do cinema. Nesse ínterim, conheceu aquele que  se tornaria o marido, ajudante de pedreiro, responsável pela recuperação da escadaria lateral da igreja. Não era inteligente, tinha uma leve deficiencia mental que o impedia de apreender as letras e os numeros. Bobo não era. Exibiu autoridade  proibindo qualquer um de usar aquela entrada da igreja até que a tarefa fosse terminada sabendo que com isso impressionaria a menina. Pois bastou. Hipnotizada pelos repetidos movimentos com a pá sobre o cimento, passou a contar as pedras à medida em que o pedreiro as assentava e só parou quando chegou a um numero incontável, dizem. Par desrespeitava a santíssima trindade, ímpar não era certo. Fez plantão ao lado dele pelos trinta anos seguintes garantindo a estabilidade da família com rituais cotidianos baseados em interpretações pessoais da bíblia. A Vida.