Veio recomendado pela filha, que trabalhava na empresa de arquitetura. Desempregado, durante um tempo foi motorista de Uber, depois começou a fazer pequenos consertos aqui e ali e finalmente conquistou o status de Marido de Aluguel, mandou fazer cartão e assumiu a função. Simpático, falante, contou dos descaminhos profissionais enquanto media e martelava os quadros na minha parede. Agachou-se e só levantou com a tomada da luminária funcionando. Falou da filha se formando: “Eu também dou para arquiteto”. Colou um vaso quebrado sem tirar a planta de dentro, vedou a pia com silicone. O gato atravessou a sala e ele fez carinho. Tinha gatos também, mas morando em casa, os dele tinham muito mais liberdade e não destruíam os sofás. Quis cobrar pouco para deixar a porta aberta, ali na frente, teríamos outras oportunidades. Achei melhor pagar o justo, pela gasolina, ele morava longe, pelo tempo, foram horas, e pelo trabalho impecável. Outro dia, mandei uma mensagem perguntando se ele poderia voltar e fiquei sabendo que tinha morrido de Covid. Me deixou aqui perdida, zanzando pela casa, toda hora reconhecendo a mão dele numa coisa ou noutra, um prego na prateleira bamba, a gravura esticada com fita dupla face, o varal destravado. Era alugado, mas a gente achou que fosse para sempre.