Me deu o disco como já havia feito antes com outros tesouros escavados na tulha da fazenda, um livro e uma faca de abrir cartas. Parou por um instante segurando o grande círculo preto no ar com a ponta dos dedos, virando-o para a faixa de luz enquanto assoprava a poeira. Disse que tinha sido da mãe e que agora era meu porque conheci Tony Bennet em Nova York e me gabei disso numa crônica. Ponho debaixo do braço com naturalidade, como se merecedora indiscutível do prêmio. É assim com ele, o distribuidor de sonhos, e comigo, sempre com fome. A herança que não me pertenceria de outra forma, ouro puro. Ele segue atento para os objetos esquecidos ali. A historia de cada um, a sua historia recontada e a historia emprestada do colecionador, a do antiquário, ele é agora dono do tempo. Vou atrás, eu também querendo inventar, ser dona do assunto. Esse, o tesouro maior.