Vamos ter que tratar o canal. Olhei para ele com incredulidade. Não era a primeira vez e na anterior me convenceu a enfrentar a provação sem anestesia, sinalizando com a mão quando doesse. Doeu diversas vezes. É importante que eu tenha a resposta do paciente para saber o que estou fazendo, explicou. Aqui é quase um vôo cego. Tentei argumentar que junto com o comprometimento socio-cultural e ambiental, assunto que ele adora, a globalização deve ter trazido até aqui tecnologia suficiente para que se saiba até onde afundar a agulha dentro do dente e nos poupar de passar por esse sofrimento todo, o da dor antecipada. Mostrei minhas mãos suadas. Respire fundo. Tente esvaziar a cabeça de todos os pensamentos. Descreveu sua experiência pessoal, uma hora por dia concentrado, mas não conseguiu que eu meditasse na cadeira.

Foi transparente. Não gosto de anestesia, acho agressivo, mas tenho horror à dor. Sou um banana, não aguento nada. Como é que a gente faz? Decisão difícil essa. Então vai na minha, doutor, e usa anestesia, por favor. Foi buscar a seringa. Corri os olhos pela parede do consultório coberta de fotos de instrumentos rudimentares usados por indianos e aborígenes para tratar os dentes. O bisturi de pedra. Sobre a bancada, as imagens de Shiva e Ganesha que ele trouxe da ultima viagem à India onde confirmou a suspeita de que não pertence a esse mundo sem espiritualidade. As coisas relevantes se dão noutra dimensão, sentenciou com a seringa no ar e os olhos azuis mergulhados em algum lugar muito longe dali.

Tinha acabado de chegar de uma yoga rave e ainda estava impactado pelas 24 horas de mantras eletrônicos ao ar livre. Lembrei-me de uma vez quando a assistente recebeu de um entregador um banquinho de madeira, desses de tirar leite da vaca, e explicou que era para ele levar numa clausura de 10 dias em que ficaria acocorado ali, de castigo, sem pronunciar nem uma palavra.

Picou uma, duas, três vezes. Vê como minha mão treme? É natural, estou ficando velho. Nós todos, aliás. Fiz que não ouvi. Não vou abrir mão do corpo assim fácil, me poupe. Você vai sentir a adrenalina agora. Leve taquicardia. Detesto fazer isso. Procuro pensar que o meu trabalho ajuda as pessoas, mas não conheço ninguém, eu incluído, que não tenha pavor de se sentar aí. Mantenha a boca aberta.