Posts by Daniel Kondo

A vida, a gente escolhe todos os dias

Posted on 11 abril, 2017

Na subida de um morro, na Ilhabela, há uma venda modesta. O Mercadinho do Zico. Ali, ou é caiçara bebendo e  jogando dominó ou é paulistano com grana, que estaciona o carro na ruela de areia, leva o que o Zico tiver, quando ele tem, e vai embora. O Zico poderia se dar bem. Bastava vender um pãozinho melhor, um queijo da serra, umas coisas meio metidas a natureba, uns doces caseiros, umas frutas legais. Podia cobrar caro porque o pessoal de fora pagaria por esse luxo sem pensar duas vezes. Mas enriquecer, claramente, não é uma prioridade do Zico. O mercadinho está sempre do mesmo jeito, vendendo vela, pilha, margarina, salgadinho vencido, Brahma e Skol. O Zico segue sentado ali, regata marcando a barriga, um olho no mar, outro na televisão. De vez em quando, um palpite no dominó.

Assim também em Guaxupé. Durante um Carnaval, fomos andar de bicicleta pelas estradinhas de terra ali perto da fazenda e paramos num botequim pequeno para tomar água. Um daqueles bares que te deixam de porre só com o cheiro de pinga. Dois caboclos ali bebendo, umas linguiças penduradas no alto, fumo para cigarro, um cachorro dormindo. Puxei conversa com o dono: Como é que anda o negócio por aqui esses dias? Ele, quase sem vontade: Tá com um pouco mais de movimento. Olhamos em volta, novamente. Os dois caras mudos, copo na mão. Ah, então tá bom pro senhor! Não, respondeu, eu prefiro quando é mais sossegado mesmo.

Na cidade, ficava a Dita Verde, a costureira. Tinha um humor muito instável, mas era decidida. Para um lado ou para o outro. Podíamos ter muita encomenda e ela precisar de dinheiro, não importava, era o que dia determinava. Minha mãe anunciava: Vamos lá ver se a Dita está pegando costura. Entrávamos no fusca com os tecidos. Minha mãe ficava no carro com o motor ligado e uma de nós tocava a campainha. Se ela abrisse a porta sorrindo, a gente acenava positivo para a turma descer do carro. Se nos recebesse com expressão transtornada, perguntando aos gritos o que queríamos, era dar meia volta e correr. As roupas ficariam para outra temporada.

Maternidade

Posted on 19 dezembro, 2012

– Luisa, fico triste pensando em você sozinha aí em Berlim.
– Mãe, eu não me sinto sozinha.
– Monstro ingrato! Igualzinho como quando você era bem pequena e foi dormir pela primeira vez fora de casa. Eu perguntei:
-Sentiu saudades da mamãe?
E você, com a carinha mais angelical do mundo:
-Não.

Prá cima de mim?

Posted on 19 dezembro, 2012

Já faz muito tempo que a Milene, que trabalha aqui em casa, ganha flores na feira. Toda quarta ela volta carregando um buquê ou um vaso de uma espécie diferente. Diz ela que o “presenteador” não é da barraca de flores, mas da barraca vizinha, de frutas, e que deve ter um acerto com o colega, algum tipo de permuta. Cada semana, ele escolhe uma bem linda e faz a dedicatória : “orquídea para durar como o meu amor”, “girassol para aquecer a sua vida” e por aí vai. Ela deixa tudo aqui em casa para não ter problema na dela. Mulher séria que é, apenas agradece o galanteio e vem embora. E ái do rapaz que ajuda a carregar as compras se esboçar um sorriso de cumplicidade.
-Mas, Milene, tadinho, você nunca nem perguntou o nome dele?
-Tadinho nada. Mulher não pode ter pena de homem. Se fraquejar, acabam as flores e entra roupa prá lavar!

Lendo os sinais

Posted on 13 dezembro, 2012

Recém separada, ela encontrou um cara que namorou na juventude e ele a reconheceu no ato. Achou que era um sinal. Foi no balcão de frios do Pão de Açúcar num domingo de manhã, outro sinal. “Quem compra frios no supermercado a essa hora? Almas gêmeas”, concluiu. Ele vestia bermuda e camiseta para fora da calça, um detalhe determinante em homens na faixa dos 5o/60 anos. “Barriga absolutamente aceitável”, observou generosa. Contra as suas expectativas, que se deu conta de que estava de cabelo sujo, moleton e crocs “e  já não sou menina prá ficar engraçadinha nessa situação”, ele mostrou-se interessado. Trocaram telefones e combinaram um almoço no dia seguinte. Ela estava nervosa, há anos não saía com outro homem que não fosse o marido e não tinha certeza de que haveria tempo suficiente para se preparar, mas “a vida estava mandando sinais que eu não poderia desconsiderar”.

Não falaram sobre trabalho na curta conversa de menos de um quilo de frios fatiados. Em casa, correu para o facebook tentar saber se não seria esquartejada e colocada numa mala já no primeiro encontro desde a separação. O perfil dele era discretíssimo, advogado, poucos amigos, poucas fotos, sempre desacompanhado. “Um sinal positivo,não é?” Mesmo concluindo que ele não era um aficcionado, fez um “face lifting”, pequenos acertos no seu próprio perfil especialmente para a ocasião. Consultou as amigas diversas vezes para saber que fotos deveria manter, quais as que a envelheciam ou a engordavam: “Meu ex era péssimo nisso, acho que fazia de propósito para ninguém se interessar por mim”, que amigos “agregavam”, quais os que “entregavam” e por aí vai.
Sobre a sua formação e experiência profissional, achou melhor pegar leve para não assustá-lo. “Ele era maluquinho quando o conheci, mas pela armação dos óculos parece que evoluiu para conservador. Esses preferem que a mulher fique`a sua sombra, o que tudo bem, né? Já trabalhei tanto, posso ser dondoca agora”. Formada em engenharia na Poli , PHD em gestão urbana, é uma referencia na área de sustentabilidade.  Na onda dos eco-tudo, leva essa preocupação `as ultimas consequências, não toma banho demorado, consulta os sites das empresas antes de consumir seus produtos, é voluntária em organizacões ambientais, vegetariana, adepta de comida natural e orgânica. Limpou tudo isso do perfil , deixou apenas o ambíguo  “interesse em recursos naturais”.
No dia seguinte,  levantou-se `as 6h, foi ao salão, depilou todos os pelos depiláveis do seu corpo, fez mão, pé, sobrancelha, escova. Teve um insight, correu até o shopping e comprou um CD da Bebel Gilberto que eventualmente seria “a nossa trilha”. E partiu para o escritório dele onde haviam combinado de se encontrar. Na entrada, tropeçou na cabeça de uma onça estendida num tapete exótico. ” Achei que era uma brincadeira. Um sinal positivo porque eu também acho engraçado provocar as pessoas”. Na ante-sala havia um enorme urso de pé  com a boca escancarada e uma placa de WELCOME pendurada no pescoço. Sentiu um aperto no peito. Na sala dele, as pernas fraquejaram  com a visão estarrecedora de dezenas de cabeças de animais com chifre, sem chifre, olhos brilhando, olhos sem vida, toda uma selva decapitada e pregada nas paredes ao lado dos diplomas de Direito e  licenças de caçador. Para ganhar tempo e recobrar os sentidos, disse que queria tirar uma foto do lugar ” tão surpreendente” e se escondeu atrás do celular. Ele sorriu orgulhoso e ajeitou a cintura da calça, agora com a camisa por dentro e uma barriga enorme bem marcada. Ela ainda conseguiu aceitar o copo d’agua e saiu tropeçando nas carcaças, peles e couros distribuídos pelo ambiente. Anunciou que estava passando mal, que a pressão tinha caído e sem dar chance para que ele a alcançasse, fugiu dirigindo seu carro elétrico pela Vila Madalena e passou, sem perceber, pelo sinal vermelho.

Sem chance

Posted on 11 dezembro, 2012

Acaba a bateria do celular, minha filha não está na porta do clube como combinado, não encontro lugar para estacionar nem tempo para entrar e resgatar a adolescente folgada. Dou uma volta xingando no quarteirão mais engarrafado da cidade e vejo a saída óbvia: o orelhão! Paro o carro de qualquer jeito. Tento usar moedas. Não sei onde comprar um cartão. Já não consigo me relacionar com aquele que tantas vezes me salvou a vida. Sigo as instruções quase apagadas no aparelho e faço uma ligação a cobrar. Ouço a musiquinha que vem na contra-mão, agora sou eu e não ela pedindo socorro, e a ordem constrangedora de dizer meu nome e de onde estou falando. Faço malcriação: “É sua mãe e vou te matar.”
Ela desliga.

 

 

 

 

 

Papo de pescador

Posted on 11 dezembro, 2012

São quase 9h da noite quando meu pai liga me convidando para uma palavrinha no jardim que separa as nossas casas. Falamos sobre o calor, o gato dele que teve o rabo comido pelo cortador de grama, o livro Carcereiros, do Drauzio Varella, e outras amenidades. Aí ele abre a razão do chamado:
– Você e seus irmãos têm que organizar um jantar de bodas para mim e sua mãe no dia 24 de janeiro.
– E quantos anos de casamento vocês estão comemorando?
– Não importa. Posso dizer que são Bodas de Pedra Sabão. O fato é que eu precisava de uma desculpa para escapar da pescaria e foi a que me ocorreu na hora.
Há anos meu pai sai por cerca de dez dias com os amigos numa viagem de pesca ao Mato Grosso onde um deles tem um “rancho” , uma pequena casa de madeira que boia sobre tambores na água escura do Rio Arinos. O rancho é tão pequeno que, certa vez, eles inflaram um bote no seu interior e depois não conseguiram sair com ele de lá.Passam a temporada a pão, churrasco e o que pescarem, bebem tudo o que puderem carregar e se contam as mesmas histórias, com pequenas variações que a memória vai elaborando. Há códigos entre eles. Não esquecer o “colírio” significa lembrar de levar a pinga. Coisas assim, de homens maduros que são.
O longo percurso é feito parte de avião, um trecho de ônibus e um tanto de carro. Um deles, o que dirige a maior parte do tempo, fez uma cirurgia pesada na bacia e tem uma prótese na perna, detalhes que não incomodam ninguém porque ele desenvolve boa velocidade mesmo assim. Meu pai, que não é o cara mais preocupado com assepsia e tem hábitos só relevados por nós por se tratar de um “legítimo Motta intelectual e artista”, é quem limpa os peixes. Um outro, “um chato sistemático”, segundo ele, é o responsável pela lista do que cada um deve levar, pelos horários e pela divisão de tarefas. Graças ao chato, a cada temporada novos acessórios são acrescentados à bagagem, boné mosquiteiro, aparelho de medir a pressão, desfibrilador. Meu pai tem horror à regras, nunca carrega documentos e fica extremamente ofendido quando o guarda o pega em alta velocidade, sem cinto de segurança nem carteira de motorista: “Eu não acredito que você vai me fazer ir até em casa buscar”, argumenta mal humorado.
Na tal pescaria, a incompatibilidade com o colega metódico é quase incontornável quando, por exemplo, ele se aproxima da sacola térmica e o chato avisa:”Opa! Cerveja só daqui a 15 minutos!”
Todos os anos, o grupo avalia suas condições físicas, familiares e financeiras e invariavelmente decide que são as ideais para a viagem.
Aconteceu que um deles, o responsável pelo levantamento dos custos e controle dos gastos, sabe Deus se por cansaço ou culpa, resolveu levar a mulher. Meu pai, então, emburrou: “Assim eu não vou. Ela é muito boazinha, pode até ajudar a lavar as coisas, mas me tira a liberdade.”  A pressão cresceu e veio o recado: “Se você não for dessa vez, não precisa ir mais”. Aí, ele saiu com essa: “São as minhas bodas. Eu tinha esquecido. E os meninos fazem questão absoluta de nos oferecer um jantar.” O argumento irrefutável convenceu seus pares: “Eu poderia ainda ter dado um tiro de misericórdia acrescentando uma missa às comemorações, mas preferi não sadicá-los”, disse querendo cumplicidade.
Prometi confirmar a história se fosse consultada. Voltei para casa pensando se deveria ligar para meus irmãos e tratar de armar, de fato, uma festa no 24 de janeiro. Depois achei que era levar longe demais a conversa de pescador do meu pai.

Comemorando Finados

Posted on 1 novembro, 2012

Manuela nasceu em Nova York, no dia 2 de novembro, Dia de Finados. Quando liguei para o Brasil para dar a notícia, minha mãe fez duas perguntas: se esse era o nome definitivo da criança e se não poderíamos registrá-la em outra data que não essa “tão pesarosa.” Até aquele momento, eu não havia me dado conta de que era Dia de Finados porque já estava morando fora há um bom tempo e lá esse feriado não existe. Alterar a data estava fora de cogitação. Era como se eu, prepotentemente, quisesse mudar a natureza ou as leis divinas. Achei ruim também que ela começasse a vida já trocando a data de nascimento. Uma mulher tem que escolher a hora certa de mentir. Minha mãe é mineira de Guaxupé, uma cidade pequena onde o Dia de Finados é uma data respeitadíssima em que as famílias correm ao cemitério numa espécie de gincana para ver quem enfeita mais o túmulo dos seus entes queridos. O cemitério fica no alto da cidade. Tenho lembranças assustadoras de longos e exaustivos cortejos pelas ruas de paralelepípedo atrás do carrinho com o caixão. No portal de entrada do cemitério há um recado naquele tom mineiro da religiosidade que não acredita em milagres: “Eu sou o que tu és. Tu serás o que eu sou.” Ontem, na visita que nos fez para se despedir, minha mãe comentou o clima pré Finados em Guaxupé. Disse que as tias sugeriram: “Porque você não traz umas flores diferentes de São Paulo?” e ela se sentiu cobrada por não enfeitar o túmulo dos meus avós com as últimas novidades do paisagismo. O medo da fofoca é que pega: “Diz que o túmulo de fulano está pobrezinho…Colocaram lá umas gerberas e pronto. Coitado, um homem tão bom…” Preocupada com os comentários e com medo de ficar para trás, minha mãe ligou aqui de casa mesmo e expediu a ordem para meu pai, em Guaxupé: “Pega o tesourão e corta bastante flor na fazenda, especialmente agapanto que eu gosto e traz para colocar no cemitério amanhã. Eu vou chegar na hora do almoço e aí já será tarde para ornamentar os túmulos. Vão falar.”
No ano passado, fomos passar o aniversário da Manu em Oaxaca, no México, onde o Día de Los Muertos é uma festança esparramada pela cidade toda, com barracas de artesanato, comida e bebida, muita musica, flores, velas, caveiras enfeitadas, bandas nas ruas e uma celebração animadíssima à noite nos cemitérios da cidade. Havia gente fantasiada de todo jeito, desde esqueletos, fantasmas e bruxas até lindas Fridas Khalo e caveiras de bigode. Assistimos parte de um casamento que se realizava entre os túmulos. O aniversário foi comemorado com um jantar temático em que o dono do restaurante, além das bandeirolas e velas com motivos tétricos, providenciou musica típica, arranjos de flores, toalhas e guardanapos coloridos e nos serviu pisco em garrafas decoradas especialmente para a ocasião.
Minha mãe ficaria horrorizada, mas era exatamente assim que eu via o aniversário da minha filha, um Dia de Finados às avessas, a celebração da vida em toda a sua grandeza, em todas as suas dimensões. O nascimento da Manuela no dia em que as pessoas se lembram dos seus mortos queridos, foi o recado mais acertado que eu poderia receber: a vida é maior do que nós.

Uma Luisa pela outra

Posted on 26 outubro, 2012

Pouco depois que a Luisa, minha filha, nasceu em Nova York, nós viemos ao Brasil para que os avós conhecessem a neta. Luiza Erundina acabava de ser eleita prefeita de São Paulo e morava na mesma ruazinha, de apenas dois quarteirões, que meus pais, perto da Vila Mariana. Meu doce compadre, padrinho dela e diretor de um grande jornal, comprou uma boneca e aproveitou a carona de um dos motoboys que iria até a casa da nova prefeita, para mandar o presente. Mais tarde, numa conversa, contei que não recebemos boneca alguma. Ele, então, foi investigar. Aconteceu que o motoboy errou de Luisa e entregou o presente na portaria do prédio da prefeita. Seguindo o protocolo, os seguranças abriram a caixa e achando o conteúdo suspeito, destruíram o brinquedo atrás de uma bomba ou coisa que o valha. Fiquei chateada. A Erundina podia não gostar de brincar de boneca, mas a turma não precisava levar isso tão a sério.