Posts by Marina Moraes

O sol

Posted on 28 maio, 2018

Num dia, desses em que os velhos e os gatos brigam pelo sol que atravessa as vidraças da casa, segui minha filha, sem aula por uma greve ou por outra, até a cama dela e nos deitamos bem pertinho uma da outra dividindo a mancha amarela esparramada ali. Ouvi longe os trabalhadores de uma obra gritando e rindo, gestalt operária. Na cama, os hálitos de hortelã e o cheiro de shampoo a um palmo de distância. O livro não durou nem um minuto nas minhas mãos e o celular dela também escorregou rápido para a colcha. Senti o calor de fora, o do corpo dela e, sobretudo, o da paz daquele momento que desde que ela era pequena não se repetia. A soneca da tarde é proibida para o adulto saudável. Em Minas, é um hábito mal visto, sinal de preguiça, coisa de índio vagabundo. Acorda-se com as galinhas e dorme-se pouco depois que escurece, sem espaço para cochilos intermediários. Arriscando-me a ficar mal falada, fiz que não ia e fui em silêncio atrás dela. Adolescente dorme sem pena de perder tempo. Senti saudade de quando era menina e me deitava com minha mãe depois do almoço para estudar, ela lendo a matéria para mim. De costas, fingia que estava ouvindo e, ela sabendo, dormia o sono seguro das pessoas que são amadas. Não se passou meia hora e eu acordei com o sol inteiro dentro de mim.

Cadarços amarrados

Posted on 19 maio, 2018

O louco atravessou a rua num passo curto e arrastado com os cadarços dos tênis amarrando um pé ao outro. Parecia louco porque estava sujo, tinha o cabelo desgrenhado, panos cobrindo o corpo e sobretudo porque não fazia caso da aparência de presidiário em fuga. Era a verdade naquele momento. A contraditória liberdade daquela fantasia traduzia sem rodeios o seu sentimento. Seguiu pela calçada caminhando com dificuldade, cabeça erguida, denunciando a pena imposta a ele por sua história de abandono. E quem viu, fez que não.

Extermínio

Posted on 12 maio, 2018

Os corpos foram exibidos com discreto contentamento de ambas as partes. Os donos da casa voltaram a dormir e os exterminadores sumiram na escuridão contando as notas. Fazia uma semana que os sons ecoavam da cozinha, ladrilhos e azulejos, como se uma alma penada viesse invisivelmente comer no meio da noite porque mal se acendiam as luzes e o barulho parava. A ração do cachorro começou a aparecer espalhada e uma banana mordida foi arrastada até o comedouro como sobremesa. Gentepragmática que era, deixaram os fantasmas para lá e enfrentaram a dura realidade da presença de ratos na casa. Num primeiro momento, armaram o chão de ratoeiras daquelas com cola, substituindo a medieval guilhotina metálica, sugestão do funcionário da loja de material de construção do bairro e esperaram o resultado que por alguma razão não veio. Estavam diante de criaturas mais do que rápidas, perspicazes. Deviam conhecer a armadilha, popular, antiga, citada em livros infantis com final infeliz para eles. Então, trancaram o pobre gato, um minúsculo exemplar preto e branco de rabo quebrado, recém adotado num abrigo, que nunca tinha dado fim numa única lagartixa, para que caçasse os roedores. Na manhã seguinte ao abrirem a porta, lá estava ele, o Kiko, em cima do fogão, com olhar estatelado, restos de frutas e pão deixados propositadamente à mostra, beliscados no chão. Muito tempo depois, o Kiko ainda tratava de se recuperar do susto dormindo aos pés do casal.
Ela então, armou-se de coragem, esperou o silencio da casa, posicionou-se de forma a flagrar a visita noturna. À certa altura, nem tão tarde, surge a ratazana, solitária, enorme, gorda, rabo longo e expressão assassina, muito à vontade, alargando seus limites até a sala e passa a roer… o tapete! Abusou. Correram as duas, ela aos gritos para acordar o marido, a outra a balançando o traseiro para debaixo fogão. De pijama, ele abre o computador buscando socorro e o encontra entre dezenas de exterminadores de pragas, aberto 24 horas. Em São Paulo, a gente resolve tudo desde que consiga pagar, comenta sem tirar os olhos da tela. Pouco depois das duas da madrugada, surge a dupla em camisetas da Sem Dó Nem Piedade – Extermínio de Pragas, armada de algum equipamento. O senhor quer acompanhar o serviço? Não, só quero ver o cadáver. Fecham-se na cozinha. Do sofá, ouvem as batidas e os guinchos do animal. Terminada a execução, apresentam o corpo sem vida e ainda ameaçador da ratazana. Enquanto um ocupa-se de sumir com a carcaça, o outro mostra o celular carregado de imagens de diversos ratos abatidos. Para o companheiro era um serviço como outro qualquer. Não para ele. Sentia prazer no que fazia, orgulhava-se de chacinar o inimigo. Despediram-se. Boa noite, senhores. Sempre à disposição.

Gentileza fora de hora

Posted on 2 maio, 2018

No refinado restaurante francês, conhecido pela cuisine que vem de varias gerações, acho estranho que os preços não estejam no cardápio. Deve ser chique, pensei e dou risada imaginando como vamos nos dar mal nessa aventura gastronômica às cegas. Comento com meu namorado, tentando levar a coisa com bom humor. Ele me estende o seu cardápio com os valores, como seria natural. Chamo o maitre para dizer que houve um erro: Veja, esse aqui não tem os preços! Hahaha! Ele devolve num tom quase irônico, acentuando o sotaque francês em território uruguaio, que é assim mesmo. E como se fosse uma óbvia questão de educação, explica que apenas os homens devem conhecer os preços do que estamos comendo. Indignada, mas em voz baixa, juro, digo que não é porque o restaurante é de 1878 que o mundo tenha parado naquele tempo. E que é extremante ofensivo considerar que as mulheres tenham um papel figurativo na mesa. Na sociedade. Na política. Na economia. Agora, ele é que está surpreso. Até hoje, nunca tivemos reclamação, madame. Enquanto esperava meu marido experimentar o vinho, cortesia que só a ele foi oferecida, pensei com meus tostões: se a grande maioria dos homens ainda ganha mais e tem privilégios profissionais, eles que paguem a conta. E nesse caso, muito caro.

Morrer em Minas

Posted on 2 maio, 2018

Quando a tia morreu, minha mãe mandou que eu fosse ajudar a vesti-la para o velório. Eu não tinha mais do que 15 anos e nunca tinha visto um morto de perto, na sua intimidade.
Naquele tempo, nas cidades do interior de Minas, quase todo mundo morria e era velado em casa. Vinha o médico, o padre e o pessoal da funerária, gente que provavelmente conheceu o morto desde criança, estudaram juntos, no atrevimento, tiveram um flerte. No caso da tia, que era bem mais velha e foi professora de uma geração inteira, a relação era de respeito e admiração.
O caixão ficou sobre a longa mesa da sala, debaixo do teto cinza com anjos, nuvens e flores pintadas à mão. Até que o sol se escondesse, as luzes coloridas dos vitrais atravessavam a parte superior dos janelões e pintavam o corpo com pinceladas surrealistas. De vez em quando, um passarinho distraído entrava e saía apressado dando-se conta de que não era lugar nem hora de errar o caminho. O rosto da tia estava coberto por uma rede onde os mosquitos zumbiam e eram afastados por alguma mão carinhosa.
Aquela era a sala em que, ao longo de seus 102 anos, ela recebeu a família para o lanche aos domingos depois da missa. Homens, não muitos, fumando no alpendre. Mulheres, dezenas delas, na copa, onde o som das conversas e risadas, das xícaras descendo sobre os pires, dos garfos nos pratos de bolo e do mastigar biscoito de polvilho atraíam mais as crianças do que o bate-papo masculino à meia voz. Na copa, os assuntos se cruzavam sobre a mesa feito bolinha de fliperama e não se perdia nenhum detalhe de nenhuma das conversas. Nós, as meninas, crescemos ali e, claro, afiamos nossos ouvidos à perfeição. Hoje, modéstia a parte, damos conta de acompanhar qualquer quantidade de conversas ao mesmo tempo. A cena ali, inclusive pela longevidade das mulheres da família, nos parecia eterna, congelada como as paisagens dos quadros nas paredes da casa. Brincávamos de amarelinha sobre os ladrilhos hidráulicos ou nos preparávamos com sacos de papel cobrindo a cabeça para caçar morcegos no porão. Debaixo da casa, o cheiro de umidade prendia a respiração. Suando, agitávamos vassouras de palha no escuro para obrigar os morcegos a voar e então, na gritaria da excitação, tentar abate-los, o que nunca aconteceu.
Quando entrei no quarto, a tia estava estendida na cama de casal apesar de ser solteira. Metidas no armário, separando roupas com a calma de profissionais experientes, outra tia, irmã mais nova dela, de cerca de 90 anos, e a empregada da casa que adorávamos e temíamos por ser a única autoridade sobre nós. A tia estava de camisola cor de rosa como se ainda dormisse o sono de quando morreu. Sobre a tampa de mármore do criado-mudo, varias caixas de remédio, o terço e um copo onde devia estar a dentadura, ou mentira, foi a força da minha imaginação porque sempre imaginávamos que ela tirava os dentes para dormir. Chamou-me a atenção seus pezinhos descalços pela primeira vez. E me lembro das varizes que ela escondia com meias grossas enroladas até os joelhos. Sob a transparência da camisola, pude ver os peitos que não fiquei olhando muito pela vergonha. Seu corpo estava amarelado apesar de ser a mais morena das tias. Fiquei ali parada, obedecendo a ordem da minha mãe, mas não tinha nada para fazer. As duas vestiram a tia sobre a camisola mesmo, como se fosse uma combinação, colocaram meia e sapato. Do resto, cabelo, batom, brincos e o colar de pérolas herdado da minha bisavó, alguém cuidou porque ela estava toda arrumada no caixão. O cheiro das flores e das velas era muito diferente do cheiro do café sempre perfumando a casa. Minha mãe estava muito triste, talvez por isso tenha me chamado para substitui-la na dura tarefa de preparar o corpo para aquele ultimo encontro. Uma prima começou a cantar uma musica religiosa e caiu mal, ninguém gostou da sua intervenção, mas a fala do padre lembrando as vantagens de se ir para o céu, mesmo cheia de erros de concordância, foi aprovada por todos. O caixão foi empurrado num carrinho aberto até o cemitério no alto da cidade. Que escolha infeliz, pensei. Porque diabos escolheram aquele lugar, já que quase todo dia morria alguém e a escalada pelas ruas de paralelepípedo era sacrificadíssima. Minha mãe ficou brava com a inapropriada observação. Acima do portão do cemitério, havia um escrito que sempre me assombrou: Eu sou o que tu és, tu serás o que eu sou. Enterramos a tia num túmulo grande onde já havia fotos e nomes de vários membros da família. Na saída, as pessoas pediam desculpas pelo desrespeito enquanto pisavam os outros túmulos mais baixos porque não havia espaço entre eles para caminhar.
A casa da tia foi posta à venda. O jardim virou um matagal e a área externa foi alugada para um estacionamento. Aboletadas em mesinhas na calçada da lanchonete ao lado, com a boca roxa de açaí, assistimos a procissão passar. Em Minas, a vida nunca perde o sentido.

Um causo

Posted on 16 abril, 2018

Presa fora de casa numa noite de inverno em Nova York, corri para me aquecer num cinema ali perto, indiferente ao que estivesse passando. O filme vintage em cartaz, Sid and Nancy, contava a historia de um dos casais mais loucos do rock’n’roll nos anos 70. Eu conhecia os Sex Pistols de nome e sabia da fama de Sid Vicious, o desvairado ícone da cultura punk e baixista da banda. Sid estava no auge da carreira quando apaixononou-se por Nancy, uma stripper, viciada em heroína, com quem viveu momentos dramáticos à base de drogas e álcool. A intensa relação amorosa foi marcada por violência e muitos escândalos. Sid morreu aos 21 anos por overdose de heroína durante uma festa na casa da mãe quando comemoravam sua saída da cadeia onde estava preso por ter, supostamente, assassinado Nancy com uma facada no Hotel Chelsie, onde moravam. Esse é o resumo da história de amor que eu assistiria ali. O cinema estava quase vazio e decidi ir banheiro antes do filme começar. Já estava com a porta da cabine fechada quando ouvi conversas em voz alta entre várias mulheres. Não eram exatamente conversas, mas palavrões e urros de raiva que soavam como uma briga. Pelo vão embaixo da porta, pude ver coturnos pretos sobre meias arrastão sobre pernas tatuadas. Subi no vaso sanitário e fiquei quietinha ali, morrendo de medo. Elas chutavam as portas, a minha inclusive, batiam no espelho com os metais do figurino punk gritando coisas que não entendi. Achei que procuravam alguém para maltratar. Com o coração disparado, esperei que desistissem e fossem embora. Saí tentando ser invisível e voltei para o escuro da sala onde o casal protagonista se beijava com agulhas fincadas nos braços. De longe, vi a turma em suas roupas de couro, correntes, cabelo moicano, coleiras pontiagudas. Sentei-me perto de outra mulher para me sentir mais segura caso as punks voltassem ao ataque. Cinco minutos depois, a mulher colocou a mão na minha coxa e eu entendi que aquele filme não era para mim.

Velhice

Posted on 16 abril, 2018

Conversa ao pé do fogão.
Eu trabalhei num asilo desses chique e dava muita pena. Tinha um senhorzinho, por exemplo, que a mulher colocou ele lá e esqueceu. Ele tava muito melhor do que os outro. Não precisava de ajuda pra comer, tomava banho sozinho e dançava que era uma beleza. Ela mandava sabonete, shampoo, umas roupa de vez em quando.
Que tristeza! Que idade esse senhor tinha?
Uns 60.

Exclusão

Posted on 16 abril, 2018

Você sente solidão? devolveu a terapeuta ouvindo os ais da paciente. Só na cadeira do dentista, a queixante brincou antes de encontrar resposta mais elaborada. Nunca tinha pensado sobre o assunto. Além de bons amigos e uma família numerosa, mantinha um diálogo contínuo com ela mesma, uma convivência íntima e sem máscaras com seus sentimentos e idéias. Medos, alegrias, sonhos, planos ardilosos, fracassos. Até falo sozinha! acrescentou em silencio, querendo reforçar a proximidade dela com ela mesma. E me ouço!
Tinha mais argumentos. Os livros, por exemplo. Não é que fugia para eles, ao contrário, durante um tempo, abria a casa para os personagens e situações literárias alargando sua estrutura de vida. Escrever sim, era solitário, o que é diferente de solidão. A reflexão e a criação são exercícios puxados da alma de cada um. Sozinho. Ninguém pode fazer um abdominal por você. Fazemos força num movimento próprio. E foi no desenrolar do assunto, esparramada na poltrona do consultório, que ela se lembrou da única situação em que sentiu solidão. Foi na mentira do outro. No escondido dela. Na exclusão. Naquele momento em que o outro decidiu que ela não fazia parte. A mentira era a confirmação de que, como ela sempre soube, cada um vive no absoluto de si mesmo. Quando o relógio marcou o final da sessão, levantou-se com a contraditória sensação de ter ganhado um premio sem serventia. Um bicho de pelúcia no bingo.

Dona de casa

Posted on 19 março, 2018

Abriu a embalagem do amaciante concentrado, colocou meia tampa na máquina e o resto ela tomou para se matar. Não botou para fora, como se poderia imaginar. Engoliu tudinho e jogou o pacote no lixo entre restos de macarrão da noite anterior. Pensou que se a coisa demorasse, talvez desse tempo de estender a roupa. Nunca gostou de deixar serviço de casa para trás. O cheiro do amaciante ficou no ar. Era um perfume doce que distinguia as camisas do marido, quando ainda o tinha, e as roupas das crianças de outras famílias do bairro, um luxo que se permitia como recompensa pela trabalheira. Uma vez, quando foi lavar roupa, ficou um bocadinho do líquido azul nos dedos e ela lambeu e não achou ruim. Foi por isso que quando a intenção veio sem alternativa, ela escolheu o amaciante. Podia também ter sido Cândida, reconhecida pela eficiência em tudo o que se mete, mas esse cheiro ela não suportava nem nas mãos quando torcia os panos de chão, que dirá beber! Sabia de uma comadre da mãe que bateu veneno de rato com a massa de bolo e comeu. Era uma boleira de mão cheia e quando a situação apertava ela vendia para os professores da escola onde trabalhava. Então, ninguém estranhou quando veio a notícia. Maldavam que a casa dela vivia infestada de ratos e que se não fosse do veneno, ela morria esmagada numa ratoeira. Nojo.
Antes de seguir para a lavanderia, ela preparou o lanche das crianças. Pão de leite com requeijão light que estava em oferta e naquela manhã substituiu a margarina. Sorriu pensando na surpresa dos meninos quando mordessem o sanduíche. Abriu as garrafas plásticas, colocou o Tang sabor manga que eles gostavam e checou se as tampas estavam firmes para não derramar na lancheira. Uma banana. Despediu-se se deles no portão sem arrependimento e dirigiu-se mecanicamente até a janela para vê-los atravessar a rua e seguirem pela calçada até sumirem na esquina. Veio a sensação boa de que eles dariam conta de caminhar sozinhos pela vida. A vizinha lavava a calçada empurrando o cisco para a rua com a mangueira. Sacos pretos amontoados, à espera do lixeiro, os cachorros rondando, imaginou que logo estaria metida num deles. Com as mãos cheirando alho e os olhos arregalados de excitação, a vizinha lamentaria o ato desesperado: Eu ainda vi ela no chão. A coitada se foi inteira azulzinha! Repetiria um milhão de vezes as palavras dos policiais e descreveria com detalhes fantasiosos a expressão culpada do ex-marido, o número de contato pregado na geladeira para uma emergencia das crianças, que chegou correndo acompanhado da nova mulher, “lindíssima e extremamente bem vestida”, ela diria para apimentar a história. Sentiu uma ponta de prazer constatando que seria, talvez pela primeira vez, o assunto no cabeleireiro. Na feira. Na padaria. Agora ela era a protagonista aparecendo todos as noites na novela. Era a mulher romântica que leva o amor às últimas consequências. Ele é o viúvo que chora desesperado debruçado sobre o caixão. Faz questão de pagar as despesas de um enterro de primeira. A pensão pesando na consciência. Ela renasce no último pensamento dele antes de dormir e no primeiro ao acordar. A fotografia nos porta-retratos dos filhos eterniza sua presença na casa onde eles moram com o pai. E então, vai para a lavanderia.