Posts by Marina Moraes

Nas entranhas do Detran Parte 2 – O resgate

Posted on 2 junho, 2018

 

Para a liberação do veículo, o site do Detran pede que o infrator defina a que batalhão pertence a Policia Militar que o abordou na blitz. Nem sabia que era a PM. Nunca tinha pensado no assunto dos uniformes, exceto quando o prefeito repaginou os marronzinhos, agora amarelinhos, e a Cidade ficou Linda.
Às sete em ponto do dia seguinte, desço a escadaria da estação Armênia do metrô. A primeira senha. No guichê, soube que o valor, IPVA, multas e outras punições, teria que ser pago em dinheiro vivo ou no débito e eu não tinha nem uma coisa outra porque o valor ultrapassava o limite do cartão. Atravesso apressada o pontilhão atrás de um banco esquecendo que só abre às dez. Diminuo o passo e dou com simpáticas lojinhas de bairro e simpáticos vendedores. Comprei amêndoa e pistachio, dentaduras de açúcar, jujuba, miçangas coloridas, chita. Tudo por quilo. Passei por um barbeiro/bar, uma afiadora de alicate de unha e dezenas de portas com acessórios falsos para celular. Na padaria, onde me permitiram ficar por quase duas horas numa mesa com um copo de café, assistimos a Globo na Copa, pobres repórteres que, como eu, tentavam achar graça na desgraça que é cavar matéria nova todo dia. A fila na porta do banco já estava formada por três ou quatro idosos conversando. Eu com cem quilos de compras na bolsa. Outra senha. O rapaz do caixa tira o dinheiro, conta as notas e separa em montinhos com elástico me instruindo a distribui-los pelos bolsos. Alertou sobre os perigos do bairro. Pensei que ali quem não era assaltante era extremamente gentil. Abraçada nos meus bolsos, volto ao guichê do Detran, agora com centenas de pessoas com números de senha abaixo da minha. Pago uma pequena fortuna e recebo papéis que devo apresentar noutro guichê. Senha. Pediam cópias de documentos que eu deveria levar ao Detran de Diadema, mas que seriam carimbados ali. Dirijo-me ao xerox/lanchonete do outro lado da rua e espero a minha vez na fila entre pessoas que almoçavam ao longo do mesmo balcão. Na volta, nova senha, passei por um guichê exclusivo para despachantes, quem dera, e esperei ao lado de um casal muito simples, ela, mirradinha, ameaçando a sogra de morte “a véia desgraçada”, dois namorados segurando os capacetes da moto e se pegando de dar inveja, gente sentada, gente de pé, crianças correndo, a clientela diversificada. Chamaram o 154, agora eu já chegava espiando a senha do outro, eu com a 177. Entrego os documentos e a moça garante, eu fiz jurar, que ligava para avisar que eu podia ir até Diadema recuperar o carro. Não ligou. No dia seguinte, meti-me num Uber e, por minha conta e risco, mãe cê tá louca, parti para aquele município achando que era uma viagem, nem foi. Como desgraça burocrática pouca é bobagem, era dia de jogo do Brasil e o país parava de funcionar às duas da tarde. As ruas com ares de fim do mundo. O Detran de Diadema lotado. Entro, puxo a senha mecanicamente, fila, apresento a autorização do Detran de São Paulo. Sem a emoção que corresponderia ao momento, o rapaz anunciou que o veículo estava à minha espera no pátio a quinze minutos dali. Outro Uber. Esse, sem aplicativo e sem noção do destino: a senhora pode me dirigir, por favor? Claro, vamos trocar de lugar , tive vontade de responder. Lembrando um presídio, o gigantesco portão de ferro abria o suficiente para passar uma pessoa de cada vez. Uma multidão aguardava rendida o chamado para adentrar um puxado de laje sem ar-condicionado, receber uma senha e ser atendido, se é que se pode chamar assim, em três guichês fechados com vidro escuro, à prova de bala, diziam os que estavam há horas presos ali. No último guichê a placa com os preços, dependendo da categoria do carro, de quantos dias “usou” o estacionamento, taxa de guincho e tais. Outra pequena fortuna. De um pequeno alto-falante abafado, soando fanho, saíam os nomes e números das senhas dos infratores. O tempo correndo, o jogo se aproximando. A má vontade dos funcionários ajudando a apertar o relógio. Ninguém entedia o que o microfone dizia. Ansiosa, enlouquecendo de calor, postei-me com a ouvido colado nele e passei a fazer a tradução aos gritos. Vinha Walter Wilson da Silva, eu repetia Walter Wilson da Silva! Os gritos pelo Walter Wilson se multiplicavam pela multidão até o Walter Wilson chegar ao guichê. Um ou outro mais lento era carregado para a frente. Uma senhora mostrou a mancha roxa no braço e contou que ao receber a chamada para o resgate do carro, arrancou a agulha da hemodiálise e correu. Outra passou o lencinho de papel para um rapaz suando: tá limpo, pode usar, só chorei nele. A menina da vez tentava escrever o nome com a mão esquerda, a direita engessada. Num misto de generosidade e desespero, me ofereci para preencher o formulário por ela e já estava no sobrenome do meio quando ouvi o grunhido do outro lado do vidro dizendo que só ela podia fazer isso. O jogo chegando. A turma se tornando inquieta. Um homem tremia tanto que não conseguia contar o dinheiro. Depois de xingar aos palavrões o Detran, o governo, o time do Brasil, as mães de uns tantos filhos seus, anunciou que ia fumar um baseado e voltava depois. Era de novo o cartão de débito ou dinheiro vivo. O pessoal, sempre na segunda opção, empurrava as pilhas de notas por uma pontinhola giratória de onde mal ouvia-se a ordem para finalmente dirigir-se ao pátio. Eu ajudando a despachar aquele e apressar o próximo. Vamos gente, prestenção, quer perder o jogo? Quando me chamaram, enlouqueci. Era como se fosse a chance de subir no ultimo helicóptero saindo de Saigon. Suada e sorridente, com ar de superioridade, abri caminho entre a turma de senha na mão e subi o ladeirão até o pátio onde os carros tomavam sol. Pediram que eu checasse o veículo, dentro e fora, entregaram a chave, digitei São Paulo no Waze, liguei o radio para ouvir o segundo tempo do jogo e segui para casa certa de que tinha me dado bem.

O sol

Posted on 28 maio, 2018

Num dia, desses em que os velhos e os gatos brigam pelo sol que atravessa as vidraças da casa, segui minha filha, sem aula por uma greve ou por outra, até a cama dela e nos deitamos bem pertinho uma da outra dividindo a mancha amarela esparramada ali. Ouvi longe os trabalhadores de uma obra gritando e rindo, gestalt operária. Na cama, os hálitos de hortelã e o cheiro de shampoo a um palmo de distância. O livro não durou nem um minuto nas minhas mãos e o celular dela também escorregou rápido para a colcha. Senti o calor de fora, o do corpo dela e, sobretudo, o da paz daquele momento que desde que ela era pequena não se repetia. A soneca da tarde é proibida para o adulto saudável. Em Minas, é um hábito mal visto, sinal de preguiça, coisa de índio vagabundo. Acorda-se com as galinhas e dorme-se pouco depois que escurece, sem espaço para cochilos intermediários. Arriscando-me a ficar mal falada, fiz que não ia e fui em silêncio atrás dela. Adolescente dorme sem pena de perder tempo. Senti saudade de quando era menina e me deitava com minha mãe depois do almoço para estudar, ela lendo a matéria para mim. De costas, fingia que estava ouvindo e, ela sabendo, dormia o sono seguro das pessoas que são amadas. Não se passou meia hora e eu acordei com o sol inteiro dentro de mim.

Cadarços amarrados

Posted on 19 maio, 2018

O louco atravessou a rua num passo curto e arrastado com os cadarços dos tênis amarrando um pé ao outro. Parecia louco porque estava sujo, tinha o cabelo desgrenhado, panos cobrindo o corpo e sobretudo porque não fazia caso da aparência de presidiário em fuga. Era a verdade naquele momento. A contraditória liberdade daquela fantasia traduzia sem rodeios o seu sentimento. Seguiu pela calçada caminhando com dificuldade, cabeça erguida, denunciando a pena imposta a ele por sua história de abandono. E quem viu, fez que não.

Extermínio

Posted on 12 maio, 2018

Os corpos foram exibidos com discreto contentamento de ambas as partes. Os donos da casa voltaram a dormir e os exterminadores sumiram na escuridão contando as notas. Fazia uma semana que os sons ecoavam da cozinha, ladrilhos e azulejos, como se uma alma penada viesse invisivelmente comer no meio da noite porque mal se acendiam as luzes e o barulho parava. A ração do cachorro começou a aparecer espalhada e uma banana mordida foi arrastada até o comedouro como sobremesa. Gentepragmática que era, deixaram os fantasmas para lá e enfrentaram a dura realidade da presença de ratos na casa. Num primeiro momento, armaram o chão de ratoeiras daquelas com cola, substituindo a medieval guilhotina metálica, sugestão do funcionário da loja de material de construção do bairro e esperaram o resultado que por alguma razão não veio. Estavam diante de criaturas mais do que rápidas, perspicazes. Deviam conhecer a armadilha, popular, antiga, citada em livros infantis com final infeliz para eles. Então, trancaram o pobre gato, um minúsculo exemplar preto e branco de rabo quebrado, recém adotado num abrigo, que nunca tinha dado fim numa única lagartixa, para que caçasse os roedores. Na manhã seguinte ao abrirem a porta, lá estava ele, o Kiko, em cima do fogão, com olhar estatelado, restos de frutas e pão deixados propositadamente à mostra, beliscados no chão. Muito tempo depois, o Kiko ainda tratava de se recuperar do susto dormindo aos pés do casal.
Ela então, armou-se de coragem, esperou o silencio da casa, posicionou-se de forma a flagrar a visita noturna. À certa altura, nem tão tarde, surge a ratazana, solitária, enorme, gorda, rabo longo e expressão assassina, muito à vontade, alargando seus limites até a sala e passa a roer… o tapete! Abusou. Correram as duas, ela aos gritos para acordar o marido, a outra a balançando o traseiro para debaixo fogão. De pijama, ele abre o computador buscando socorro e o encontra entre dezenas de exterminadores de pragas, aberto 24 horas. Em São Paulo, a gente resolve tudo desde que consiga pagar, comenta sem tirar os olhos da tela. Pouco depois das duas da madrugada, surge a dupla em camisetas da Sem Dó Nem Piedade – Extermínio de Pragas, armada de algum equipamento. O senhor quer acompanhar o serviço? Não, só quero ver o cadáver. Fecham-se na cozinha. Do sofá, ouvem as batidas e os guinchos do animal. Terminada a execução, apresentam o corpo sem vida e ainda ameaçador da ratazana. Enquanto um ocupa-se de sumir com a carcaça, o outro mostra o celular carregado de imagens de diversos ratos abatidos. Para o companheiro era um serviço como outro qualquer. Não para ele. Sentia prazer no que fazia, orgulhava-se de chacinar o inimigo. Despediram-se. Boa noite, senhores. Sempre à disposição.

Morrer em Minas

Posted on 2 maio, 2018

Quando a tia morreu, minha mãe mandou que eu fosse ajudar a vesti-la para o velório. Eu não tinha mais do que 15 anos e nunca tinha visto um morto de perto, na sua intimidade.
Naquele tempo, nas cidades do interior de Minas, quase todo mundo morria e era velado em casa. Vinha o médico, o padre e o pessoal da funerária, gente que provavelmente conheceu o morto desde criança, estudaram juntos, no atrevimento, tiveram um flerte. No caso da tia, que era bem mais velha e foi professora de uma geração inteira, a relação era de respeito e admiração.
O caixão ficou sobre a longa mesa da sala, debaixo do teto cinza com anjos, nuvens e flores pintadas à mão. Até que o sol se escondesse, as luzes coloridas dos vitrais atravessavam a parte superior dos janelões e pintavam o corpo com pinceladas surrealistas. De vez em quando, um passarinho distraído entrava e saía apressado dando-se conta de que não era lugar nem hora de errar o caminho. O rosto da tia estava coberto por uma rede onde os mosquitos zumbiam e eram afastados por alguma mão carinhosa.
Aquela era a sala em que, ao longo de seus 102 anos, ela recebeu a família para o lanche aos domingos depois da missa. Homens, não muitos, fumando no alpendre. Mulheres, dezenas delas, na copa, onde o som das conversas e risadas, das xícaras descendo sobre os pires, dos garfos nos pratos de bolo e do mastigar biscoito de polvilho atraíam mais as crianças do que o bate-papo masculino à meia voz. Na copa, os assuntos se cruzavam sobre a mesa feito bolinha de fliperama e não se perdia nenhum detalhe de nenhuma das conversas. Nós, as meninas, crescemos ali e, claro, afiamos nossos ouvidos à perfeição. Hoje, modéstia a parte, damos conta de acompanhar qualquer quantidade de conversas ao mesmo tempo. A cena ali, inclusive pela longevidade das mulheres da família, nos parecia eterna, congelada como as paisagens dos quadros nas paredes da casa. Brincávamos de amarelinha sobre os ladrilhos hidráulicos ou nos preparávamos com sacos de papel cobrindo a cabeça para caçar morcegos no porão. Debaixo da casa, o cheiro de umidade prendia a respiração. Suando, agitávamos vassouras de palha no escuro para obrigar os morcegos a voar e então, na gritaria da excitação, tentar abate-los, o que nunca aconteceu.
Quando entrei no quarto, a tia estava estendida na cama de casal apesar de ser solteira. Metidas no armário, separando roupas com a calma de profissionais experientes, outra tia, irmã mais nova dela, de cerca de 90 anos, e a empregada da casa que adorávamos e temíamos por ser a única autoridade sobre nós. A tia estava de camisola cor de rosa como se ainda dormisse o sono de quando morreu. Sobre a tampa de mármore do criado-mudo, varias caixas de remédio, o terço e um copo onde devia estar a dentadura, ou mentira, foi a força da minha imaginação porque sempre imaginávamos que ela tirava os dentes para dormir. Chamou-me a atenção seus pezinhos descalços pela primeira vez. E me lembro das varizes que ela escondia com meias grossas enroladas até os joelhos. Sob a transparência da camisola, pude ver os peitos que não fiquei olhando muito pela vergonha. Seu corpo estava amarelado apesar de ser a mais morena das tias. Fiquei ali parada, obedecendo a ordem da minha mãe, mas não tinha nada para fazer. As duas vestiram a tia sobre a camisola mesmo, como se fosse uma combinação, colocaram meia e sapato. Do resto, cabelo, batom, brincos e o colar de pérolas herdado da minha bisavó, alguém cuidou porque ela estava toda arrumada no caixão. O cheiro das flores e das velas era muito diferente do cheiro do café sempre perfumando a casa. Minha mãe estava muito triste, talvez por isso tenha me chamado para substitui-la na dura tarefa de preparar o corpo para aquele ultimo encontro. Uma prima começou a cantar uma musica religiosa e caiu mal, ninguém gostou da sua intervenção, mas a fala do padre lembrando as vantagens de se ir para o céu, mesmo cheia de erros de concordância, foi aprovada por todos. O caixão foi empurrado num carrinho aberto até o cemitério no alto da cidade. Que escolha infeliz, pensei. Porque diabos escolheram aquele lugar, já que quase todo dia morria alguém e a escalada pelas ruas de paralelepípedo era sacrificadíssima. Minha mãe ficou brava com a inapropriada observação. Acima do portão do cemitério, havia um escrito que sempre me assombrou: Eu sou o que tu és, tu serás o que eu sou. Enterramos a tia num túmulo grande onde já havia fotos e nomes de vários membros da família. Na saída, as pessoas pediam desculpas pelo desrespeito enquanto pisavam os outros túmulos mais baixos porque não havia espaço entre eles para caminhar.
A casa da tia foi posta à venda. O jardim virou um matagal e a área externa foi alugada para um estacionamento. Aboletadas em mesinhas na calçada da lanchonete ao lado, com a boca roxa de açaí, assistimos a procissão passar. Em Minas, a vida nunca perde o sentido.

Velhice

Posted on 16 abril, 2018

Conversa ao pé do fogão.
Eu trabalhei num asilo desses chique e dava muita pena. Tinha um senhorzinho, por exemplo, que a mulher colocou ele lá e esqueceu. Ele tava muito melhor do que os outro. Não precisava de ajuda pra comer, tomava banho sozinho e dançava que era uma beleza. Ela mandava sabonete, shampoo, umas roupa de vez em quando.
Que tristeza! Que idade esse senhor tinha?
Uns 60.

Exclusão

Posted on 16 abril, 2018

Você sente solidão? devolveu a terapeuta ouvindo os ais da paciente. Só na cadeira do dentista, a queixante brincou antes de encontrar resposta mais elaborada. Nunca tinha pensado sobre o assunto. Além de bons amigos e uma família numerosa, mantinha um diálogo contínuo com ela mesma, uma convivência íntima e sem máscaras com seus sentimentos e idéias. Medos, alegrias, sonhos, planos ardilosos, fracassos. Até falo sozinha! acrescentou em silencio, querendo reforçar a proximidade dela com ela mesma. E me ouço!
Tinha mais argumentos. Os livros, por exemplo. Não é que fugia para eles, ao contrário, durante um tempo, abria a casa para os personagens e situações literárias alargando sua estrutura de vida. Escrever sim, era solitário, o que é diferente de solidão. A reflexão e a criação são exercícios puxados da alma de cada um. Sozinho. Ninguém pode fazer um abdominal por você. Fazemos força num movimento próprio. E foi no desenrolar do assunto, esparramada na poltrona do consultório, que ela se lembrou da única situação em que sentiu solidão. Foi na mentira do outro. No escondido dela. Na exclusão. Naquele momento em que o outro decidiu que ela não fazia parte. A mentira era a confirmação de que, como ela sempre soube, cada um vive no absoluto de si mesmo. Quando o relógio marcou o final da sessão, levantou-se com a contraditória sensação de ter ganhado um premio sem serventia. Um bicho de pelúcia no bingo.

Dona de casa

Posted on 19 março, 2018

Abriu a embalagem do amaciante concentrado, colocou meia tampa na máquina e o resto ela tomou para se matar. Não botou para fora, como se poderia imaginar. Engoliu tudinho e jogou o pacote no lixo entre restos de macarrão da noite anterior. Pensou que se a coisa demorasse, talvez desse tempo de estender a roupa. Nunca gostou de deixar serviço de casa para trás. O cheiro do amaciante ficou no ar. Era um perfume doce que distinguia as camisas do marido, quando ainda o tinha, e as roupas das crianças de outras famílias do bairro, um luxo que se permitia como recompensa pela trabalheira. Uma vez, quando foi lavar roupa, ficou um bocadinho do líquido azul nos dedos e ela lambeu e não achou ruim. Foi por isso que quando a intenção veio sem alternativa, ela escolheu o amaciante. Podia também ter sido Cândida, reconhecida pela eficiência em tudo o que se mete, mas esse cheiro ela não suportava nem nas mãos quando torcia os panos de chão, que dirá beber! Sabia de uma comadre da mãe que bateu veneno de rato com a massa de bolo e comeu. Era uma boleira de mão cheia e quando a situação apertava ela vendia para os professores da escola onde trabalhava. Então, ninguém estranhou quando veio a notícia. Maldavam que a casa dela vivia infestada de ratos e que se não fosse do veneno, ela morria esmagada numa ratoeira. Nojo.
Antes de seguir para a lavanderia, ela preparou o lanche das crianças. Pão de leite com requeijão light que estava em oferta e naquela manhã substituiu a margarina. Sorriu pensando na surpresa dos meninos quando mordessem o sanduíche. Abriu as garrafas plásticas, colocou o Tang sabor manga que eles gostavam e checou se as tampas estavam firmes para não derramar na lancheira. Uma banana. Despediu-se se deles no portão sem arrependimento e dirigiu-se mecanicamente até a janela para vê-los atravessar a rua e seguirem pela calçada até sumirem na esquina. Veio a sensação boa de que eles dariam conta de caminhar sozinhos pela vida. A vizinha lavava a calçada empurrando o cisco para a rua com a mangueira. Sacos pretos amontoados, à espera do lixeiro, os cachorros rondando, imaginou que logo estaria metida num deles. Com as mãos cheirando alho e os olhos arregalados de excitação, a vizinha lamentaria o ato desesperado: Eu ainda vi ela no chão. A coitada se foi inteira azulzinha! Repetiria um milhão de vezes as palavras dos policiais e descreveria com detalhes fantasiosos a expressão culpada do ex-marido, o número de contato pregado na geladeira para uma emergencia das crianças, que chegou correndo acompanhado da nova mulher, “lindíssima e extremamente bem vestida”, ela diria para apimentar a história. Sentiu uma ponta de prazer constatando que seria, talvez pela primeira vez, o assunto no cabeleireiro. Na feira. Na padaria. Agora ela era a protagonista aparecendo todos as noites na novela. Era a mulher romântica que leva o amor às últimas consequências. Ele é o viúvo que chora desesperado debruçado sobre o caixão. Faz questão de pagar as despesas de um enterro de primeira. A pensão pesando na consciência. Ela renasce no último pensamento dele antes de dormir e no primeiro ao acordar. A fotografia nos porta-retratos dos filhos eterniza sua presença na casa onde eles moram com o pai. E então, vai para a lavanderia.

Medo de avião

Posted on 6 março, 2018

A mulher ao lado esfrega as mãos particularmente magras e aperta uma contra a outra numa maçaroca para, em seguida, esticar e estalar os dedos. Depois, se abraça como se sentisse frio. Não sentia. Estava de vestido de alça. Dobrou e rearranjou varias vezes o casaco no colo. E, se quisesse, fechava a saída do ar-condicionado. Quando todo mundo fez descaso, ela esticou o pescoço no limite para acompanhar atentamente as instruções de segurança da comissária de bordo. De vez em quando, checava o cinto, dava um tranquinho no fecho com aqueles dedos finos dela. Estava espremida na poltrona do meio e num primeiro momento achei que poderia sentir-se sufocada, sem ter para onde correr se precisasse. Depois me veio uma sensação de aconchego que nós duas, eu na janela e a outra mulher no corredor, estaríamos garantindo a ela.
Tive pena, cúmplice daquela situação que eu conhecia tão bem. Por anos, tive pavor de viajar de avião. Minha terapeuta explicou que pânico mesmo é quando você não consegue voar. Eu ia e vinha de Nova York o tempo todo. Suando, sem ar, o corpo tão enrijecido que quando chegava do outro lado não podia puxar a mala. Sacava da bolsa o livro sensacionalista comprado no aeroporto, o assassinato do Kennedy já tive em duas ou três versões, até cansar de reler repetidamente a mesma frase sem gravar uma palavra. Rezar não adiantava, a fé não chegava tão alto. Não podia, como me sugeriram e até me presentearam, tomar um remédio desses que desmaiam a gente assim que se senta. Uma amiga tomou um comprimido tão forte que teve que ser carregada e acordou no pronto-socorro do aeroporto quando o avião não levantou vôo por problemas técnicos. Eu tinha filhas pequenas e não podia comer, nem ir ao banheiro, que dirá dormir. Chegava tão acabada que, uma vez, na Imigração do aeroporto Kennedy, uma oficial daquelas que metem medo pelo tamanho, pela voz e pela dureza, me recebeu com um “Oh, poor woman” que me fez chorar. A coisa só melhorou quando me dei conta de que, felizmente, não tenho controle sobre o desempenho do avião ou sobre quase nada nessa vida. Hoje, quando muita gente importante saiu do armário confessando seu mal-estar nas alturas, eu solto o corpo e deixo o piloto me levar.
Não sei se foi o copo d’água que ela bebeu aos golinhos, quase errando a boca que me convenceu de que eu devia, que era meu dever naquele momento tentar amenizar o sofrimento dela. Perguntei solidária: Você tem medo de avião? Ela virou-se para mim e devolveu: Não. Por que? A resposta monossilábica foi uma surpresa grande e eu, piorando a situação, expliquei: Por nada. É que eu vi você mexendo as mãos de um jeito que parecia. Ela não disse mais nada. Olhei para o céu lá fora e falei baixinho para mim mesma: Às vezes a pessoa tem, uai.

Separação

Posted on 20 fevereiro, 2018

Veio de longe, arrastando o passado em malas e caixas. Cinquenta anos. Sentado no apartamento vazio, foi abrindo uma a uma, deixando escapar a história em capítulos dobrados, amassados e rearranjados em estantes, cabides e gavetas. Animou-se. Parte já não servia no homem magro de agora, outro tanto ninguém vestiria pela extravagancia da moda ultrapassada. Havia ainda o que ficou misturado em tanques e lavadoras e estendido lado a lado nos varais da casa ensolarada. Uma saia, duas camisetas, a bermuda surrada, um moletom comprado em Miami. Separou. Em seguida, mergulhou as mãos nas profundezas de uma caixa transbordada de fotografias de uma época em que as fotografias ocupavam um espaço físico. Folheou pequenos álbuns e reencontrou a vida metida em folhas plásticas apertadas. Tomou tempo para olhar. Frente e verso. Os álbuns de capa pesada anotavam data e local. Esta, a vida organizada em viagens e comemorações. Doces registros familiares. Suspirou e devolveu tudo sem vontade de continuar a se indagar o que guardar e o que queria esquecer. Puxou uma bolsa da Nike, abriu o zíper adivinhando o conteúdo. Bonés, inúmeras carteirinhas plásticas do despachante com documentos dos carros que passaram por ali, a carteira profissional, passaportes antigos, sacos de moedas colecionadas pelo mundo. E, soltas, descuidadas, fotos de encontros apaixonados, rápidos e intensos com mulheres com metade da sua idade no rastro da impossibilidade conjugal. Gestos, olhares carregados de tensão sexual. Paisagens afrodisíacas. Sem saber o destino daquelas experiências, manteve na esbórnia da sacola junto com os óleos de massagem e as velas. Procurou e encontrou a edição moderna do Kama Sutra para Ela e Ele. A obviedade de um homem. Sentiu-se quase feliz. O espírito leve, a garantia de que algumas coisas não obedecem a ordem moral imposta e punitiva. O castigo não vinha dali.
Caixas com fios que não ligavam mais nada a nada e que, no entanto, pareciam indispensáveis. Aí, sim, a ameaça. Centenas de Cd’s, um peso desnecessário numa mala sem rodinhas. Embalados em plástico bolha, os quadros saíram de paredes sólidas, que se mantiveram de pé quando tudo caiu. Trouxe todos considerando a legitimidade da origem. A sua relação estreita com a arte. Mas foi só. O resto era recomprável quando os imóveis fossem vendidos e divididos. Observou com cumplicidade os pequenos tapetes enrolados, coletados nas idas ao Oriente durante a produção do documentário sobre a Al Jazira. Onde estaria a cópia? Ajoelhado, divertiu-se empilhando os livros em arriscadas esculturas. Doeram-lhe as costas. Levantou-se e recostou-se na poltrona apoiando os braços nos braços de couro gastos pelos braços de seu pai. Veio-lhe o proibido. Saltou. Num gesto libertário, foi até a caixa de ferramentas e, munido de um estilete, converteu vários jeans novos e caros em bermudas. Sorriu. Das vantagens de ser um homem solteiro!