Posts from the “Arquivo” Category

Um causo

Posted on 16 Abril, 2018

Presa fora de casa numa noite de inverno em Nova York, corri para me aquecer num cinema ali perto, indiferente ao que estivesse passando. O filme vintage em cartaz, Sid and Nancy, contava a historia de um dos casais mais loucos do rock’n’roll nos anos 70. Eu conhecia os Sex Pistols de nome e sabia da fama de Sid Vicious, o desvairado ícone da cultura punk e baixista da banda. Sid estava no auge da carreira quando apaixononou-se por Nancy, uma stripper, viciada em heroína, com quem viveu momentos dramáticos à base de drogas e álcool. A intensa relação amorosa foi marcada por violência e muitos escândalos. Sid morreu aos 21 anos por overdose de heroína durante uma festa na casa da mãe quando comemoravam sua saída da cadeia onde estava preso por ter, supostamente, assassinado Nancy com uma facada no Hotel Chelsie, onde moravam. Esse é o resumo da história de amor que eu assistiria ali. O cinema estava quase vazio e decidi ir banheiro antes do filme começar. Já estava com a porta da cabine fechada quando ouvi conversas em voz alta entre várias mulheres. Não eram exatamente conversas, mas palavrões e urros de raiva que soavam como uma briga. Pelo vão embaixo da porta, pude ver coturnos pretos sobre meias arrastão sobre pernas tatuadas. Subi no vaso sanitário e fiquei quietinha ali, morrendo de medo. Elas chutavam as portas, a minha inclusive, batiam no espelho com os metais do figurino punk gritando coisas que não entendi. Achei que procuravam alguém para maltratar. Com o coração disparado, esperei que desistissem e fossem embora. Saí tentando ser invisível e voltei para o escuro da sala onde o casal protagonista se beijava com agulhas fincadas nos braços. De longe, vi a turma em suas roupas de couro, correntes, cabelo moicano, coleiras pontiagudas. Sentei-me perto de outra mulher para me sentir mais segura caso as punks voltassem ao ataque. Cinco minutos depois, a mulher colocou a mão na minha coxa e eu entendi que aquele filme não era para mim.

Velhice

Posted on 16 Abril, 2018

Conversa ao pé do fogão.
Eu trabalhei num asilo desses chique e dava muita pena. Tinha um senhorzinho, por exemplo, que a mulher colocou ele lá e esqueceu. Ele tava muito melhor do que os outro. Não precisava de ajuda pra comer, tomava banho sozinho e dançava que era uma beleza. Ela mandava sabonete, shampoo, umas roupa de vez em quando.
Que tristeza! Que idade esse senhor tinha?
Uns 60.

Exclusão

Posted on 16 Abril, 2018

Você sente solidão? devolveu a terapeuta ouvindo os ais da paciente. Só na cadeira do dentista, a queixante brincou antes de encontrar resposta mais elaborada. Nunca tinha pensado sobre o assunto. Além de bons amigos e uma família numerosa, mantinha um diálogo contínuo com ela mesma, uma convivência íntima e sem máscaras com seus sentimentos e idéias. Medos, alegrias, sonhos, planos ardilosos, fracassos. Até falo sozinha! acrescentou em silencio, querendo reforçar a proximidade dela com ela mesma. E me ouço!
Tinha mais argumentos. Os livros, por exemplo. Não é que fugia para eles, ao contrário, durante um tempo, abria a casa para os personagens e situações literárias alargando sua estrutura de vida. Escrever sim, era solitário, o que é diferente de solidão. A reflexão e a criação são exercícios puxados da alma de cada um. Sozinho. Ninguém pode fazer um abdominal por você. Fazemos força num movimento próprio. E foi no desenrolar do assunto, esparramada na poltrona do consultório, que ela se lembrou da única situação em que sentiu solidão. Foi na mentira do outro. No escondido dela. Na exclusão. Naquele momento em que o outro decidiu que ela não fazia parte. A mentira era a confirmação de que, como ela sempre soube, cada um vive no absoluto de si mesmo. Quando o relógio marcou o final da sessão, levantou-se com a contraditória sensação de ter ganhado um premio sem serventia. Um bicho de pelúcia no bingo.

Dona de casa

Posted on 19 Março, 2018

Abriu a embalagem do amaciante concentrado, colocou meia tampa na máquina e o resto ela tomou para se matar. Não botou para fora, como se poderia imaginar. Engoliu tudinho e jogou o pacote no lixo entre restos de macarrão da noite anterior. Pensou que se a coisa demorasse, talvez desse tempo de estender a roupa. Nunca gostou de deixar serviço de casa para trás. O cheiro do amaciante ficou no ar. Era um perfume doce que distinguia as camisas do marido, quando ainda o tinha, e as roupas das crianças de outras famílias do bairro, um luxo que se permitia como recompensa pela trabalheira. Uma vez, quando foi lavar roupa, ficou um bocadinho do líquido azul nos dedos e ela lambeu e não achou ruim. Foi por isso que quando a intenção veio sem alternativa, ela escolheu o amaciante. Podia também ter sido Cândida, reconhecida pela eficiência em tudo o que se mete, mas esse cheiro ela não suportava nem nas mãos quando torcia os panos de chão, que dirá beber! Sabia de uma comadre da mãe que bateu veneno de rato com a massa de bolo e comeu. Era uma boleira de mão cheia e quando a situação apertava ela vendia para os professores da escola onde trabalhava. Então, ninguém estranhou quando veio a notícia. Maldavam que a casa dela vivia infestada de ratos e que se não fosse do veneno, ela morria esmagada numa ratoeira. Nojo.
Antes de seguir para a lavanderia, ela preparou o lanche das crianças. Pão de leite com requeijão light que estava em oferta e naquela manhã substituiu a margarina. Sorriu pensando na surpresa dos meninos quando mordessem o sanduíche. Abriu as garrafas plásticas, colocou o Tang sabor manga que eles gostavam e checou se as tampas estavam firmes para não derramar na lancheira. Uma banana. Despediu-se se deles no portão sem arrependimento e dirigiu-se mecanicamente até a janela para vê-los atravessar a rua e seguirem pela calçada até sumirem na esquina. Veio a sensação boa de que eles dariam conta de caminhar sozinhos pela vida. A vizinha lavava a calçada empurrando o cisco para a rua com a mangueira. Sacos pretos amontoados, à espera do lixeiro, os cachorros rondando, imaginou que logo estaria metida num deles. Com as mãos cheirando alho e os olhos arregalados de excitação, a vizinha lamentaria o ato desesperado: Eu ainda vi ela no chão. A coitada se foi inteira azulzinha! Repetiria um milhão de vezes as palavras dos policiais e descreveria com detalhes fantasiosos a expressão culpada do ex-marido, o número de contato pregado na geladeira para uma emergencia das crianças, que chegou correndo acompanhado da nova mulher, “lindíssima e extremamente bem vestida”, ela diria para apimentar a história. Sentiu uma ponta de prazer constatando que seria, talvez pela primeira vez, o assunto no cabeleireiro. Na feira. Na padaria. Agora ela era a protagonista aparecendo todos as noites na novela. Era a mulher romântica que leva o amor às últimas consequências. Ele é o viúvo que chora desesperado debruçado sobre o caixão. Faz questão de pagar as despesas de um enterro de primeira. A pensão pesando na consciência. Ela renasce no último pensamento dele antes de dormir e no primeiro ao acordar. A fotografia nos porta-retratos dos filhos eterniza sua presença na casa onde eles moram com o pai. E então, vai para a lavanderia.

Medo de avião

Posted on 6 Março, 2018

A mulher ao lado esfrega as mãos particularmente magras e aperta uma contra a outra numa maçaroca para, em seguida, esticar e estalar os dedos. Depois, se abraça como se sentisse frio. Não sentia. Estava de vestido de alça. Dobrou e rearranjou varias vezes o casaco no colo. E, se quisesse, fechava a saída do ar-condicionado. Quando todo mundo fez descaso, ela esticou o pescoço no limite para acompanhar atentamente as instruções de segurança da comissária de bordo. De vez em quando, checava o cinto, dava um tranquinho no fecho com aqueles dedos finos dela. Estava espremida na poltrona do meio e num primeiro momento achei que poderia sentir-se sufocada, sem ter para onde correr se precisasse. Depois me veio uma sensação de aconchego que nós duas, eu na janela e a outra mulher no corredor, estaríamos garantindo a ela.
Tive pena, cúmplice daquela situação que eu conhecia tão bem. Por anos, tive pavor de viajar de avião. Minha terapeuta explicou que pânico mesmo é quando você não consegue voar. Eu ia e vinha de Nova York o tempo todo. Suando, sem ar, o corpo tão enrijecido que quando chegava do outro lado não podia puxar a mala. Sacava da bolsa o livro sensacionalista comprado no aeroporto, o assassinato do Kennedy já tive em duas ou três versões, até cansar de reler repetidamente a mesma frase sem gravar uma palavra. Rezar não adiantava, a fé não chegava tão alto. Não podia, como me sugeriram e até me presentearam, tomar um remédio desses que desmaiam a gente assim que se senta. Uma amiga tomou um comprimido tão forte que teve que ser carregada e acordou no pronto-socorro do aeroporto quando o avião não levantou vôo por problemas técnicos. Eu tinha filhas pequenas e não podia comer, nem ir ao banheiro, que dirá dormir. Chegava tão acabada que, uma vez, na Imigração do aeroporto Kennedy, uma oficial daquelas que metem medo pelo tamanho, pela voz e pela dureza, me recebeu com um “Oh, poor woman” que me fez chorar. A coisa só melhorou quando me dei conta de que, felizmente, não tenho controle sobre o desempenho do avião ou sobre quase nada nessa vida. Hoje, quando muita gente importante saiu do armário confessando seu mal-estar nas alturas, eu solto o corpo e deixo o piloto me levar.
Não sei se foi o copo d’água que ela bebeu aos golinhos, quase errando a boca que me convenceu de que eu devia, que era meu dever naquele momento tentar amenizar o sofrimento dela. Perguntei solidária: Você tem medo de avião? Ela virou-se para mim e devolveu: Não. Por que? A resposta monossilábica foi uma surpresa grande e eu, piorando a situação, expliquei: Por nada. É que eu vi você mexendo as mãos de um jeito que parecia. Ela não disse mais nada. Olhei para o céu lá fora e falei baixinho para mim mesma: Às vezes a pessoa tem, uai.

Separação

Posted on 20 Fevereiro, 2018

Veio de longe, arrastando o passado em malas e caixas. Cinquenta anos. Sentado no apartamento vazio, foi abrindo uma a uma, deixando escapar a história em capítulos dobrados, amassados e rearranjados em estantes, cabides e gavetas. Animou-se. Parte já não servia no homem magro de agora, outro tanto ninguém vestiria pela extravagancia da moda ultrapassada. Havia ainda o que ficou misturado em tanques e lavadoras e estendido lado a lado nos varais da casa ensolarada. Uma saia, duas camisetas, a bermuda surrada, um moletom comprado em Miami. Separou. Em seguida, mergulhou as mãos nas profundezas de uma caixa transbordada de fotografias de uma época em que as fotografias ocupavam um espaço físico. Folheou pequenos álbuns e reencontrou a vida metida em folhas plásticas apertadas. Tomou tempo para olhar. Frente e verso. Os álbuns de capa pesada anotavam data e local. Esta, a vida organizada em viagens e comemorações. Doces registros familiares. Suspirou e devolveu tudo sem vontade de continuar a se indagar o que guardar e o que queria esquecer. Puxou uma bolsa da Nike, abriu o zíper adivinhando o conteúdo. Bonés, inúmeras carteirinhas plásticas do despachante com documentos dos carros que passaram por ali, a carteira profissional, passaportes antigos, sacos de moedas colecionadas pelo mundo. E, soltas, descuidadas, fotos de encontros apaixonados, rápidos e intensos com mulheres com metade da sua idade no rastro da impossibilidade conjugal. Gestos, olhares carregados de tensão sexual. Paisagens afrodisíacas. Sem saber o destino daquelas experiências, manteve na esbórnia da sacola junto com os óleos de massagem e as velas. Procurou e encontrou a edição moderna do Kama Sutra para Ela e Ele. A obviedade de um homem. Sentiu-se quase feliz. O espírito leve, a garantia de que algumas coisas não obedecem a ordem moral imposta e punitiva. O castigo não vinha dali.
Caixas com fios que não ligavam mais nada a nada e que, no entanto, pareciam indispensáveis. Aí, sim, a ameaça. Centenas de Cd’s, um peso desnecessário numa mala sem rodinhas. Embalados em plástico bolha, os quadros saíram de paredes sólidas, que se mantiveram de pé quando tudo caiu. Trouxe todos considerando a legitimidade da origem. A sua relação estreita com a arte. Mas foi só. O resto era recomprável quando os imóveis fossem vendidos e divididos. Observou com cumplicidade os pequenos tapetes enrolados, coletados nas idas ao Oriente durante a produção do documentário sobre a Al Jazira. Onde estaria a cópia? Ajoelhado, divertiu-se empilhando os livros em arriscadas esculturas. Doeram-lhe as costas. Levantou-se e recostou-se na poltrona apoiando os braços nos braços de couro gastos pelos braços de seu pai. Veio-lhe o proibido. Saltou. Num gesto libertário, foi até a caixa de ferramentas e, munido de um estilete, converteu vários jeans novos e caros em bermudas. Sorriu. Das vantagens de ser um homem solteiro!

Questão de gosto

Posted on 16 Fevereiro, 2018

Na mesa ao lado, redonda como convém a um grupo ímpar de convivas, a algazarra ainda está no couvert com braços estendidos e encolhidos e estendidos novamente, a manteiga sumindo, o pão que me enche a boca de água, a água, quem diria, importada no país da água. Colorindo a toalha branca, os tons diferentes de vinho nas personalidades dos vinhos e de seus respectivos consumidores. Risadaria. O cardápio comentado.
Escrever sobre comida, do ponto de vista de uma pessoa que não faz caso de comer, é um ato de bravura. Já o seria quando culinária não era moda e as pessoas cozinhavam para alimentar a família e fazer o gosto desse e daquele de vez em quando. No momento em que tornou-se tema de saúde, gente “cool” e entretenimento midiático, é particularmente difícil se posicionar de forma não entusiástica diante da simples menção de um prato. Tem sempre algum incomodado psicologizando o assunto e trazendo à mesa a auto-privação do prazer e a impossibilidade de ser feliz sem a saciação desse desejo primário. Grande parte da população mundial passa fome e isso me dói diariamente. Agradeço o pedaço de pão que engulo. Aqui, não se trata de comer para matar a fome ou só para desocupar, como diria um tio de Guaxupé. Falo do ato de levar à boca gostosuras da alma de que fala com sabedoria a Nina Horta. A comida da mãe, a a afrodisíaca, a molecular, a do Bocuse, que Deus o tenha cozinhando no céu. Essa é que me falta. É dessa que passo fome. É essa que tenho dificuldade de apreciar como meus pares. É a minha grande diferença com a sociedade, exceto aqueles que têm distúrbios alimentares com os quais também não tenho afinidade em nenhum aspecto. Que não me ouça o querido Josimar Melo, um profissional dessa cultura, aqui e acolá. O ato de comer não ocupa lugar nenhum na minha vida. Tem pouco espaço no cotidiano, nas ocasiões especiais. E aí entra a aparente frieza, a antipatia, o defeito, o desapontamento que me afasta da maior parte das pessoas. Não há discurso que convença o outro de que esse momento confraternizante de estar à mesa me é mais confraternizante do que apetitoso. Que a conversa sem haver necessariamente comida envolvida me é tão saborosa quanto aquela que se cerca de iguarias. O vinho, o dry martini, a cerveja, a pinga, que tanto aprecio, podem e devem estar acompanhados de uma pouca coisa gostosa, um pedacinho disso ou daquilo. Não cabe todo mundo. Alguns têm que ficar de fora do meu estômago tímido. A cultura gastronômica com seus temperos, cheiros e sabores me encanta. Posso passar horas ao lado do fogão de lenha na fazenda ou nas cozinhas mais sofisticadas com seus Vikings à mostra ouvindo comentários sobre o que estamos preparando. Quem não come, não cozinha bem. Me desmente uma cozinheira peruana que conheci e que, talvez pelo gênio ruim de um marido pescador, fazia os peixes mais incríveis sem nunca sequer prová-los. A cozinha é o ambiente de que mais gosto numa casa. Das publicações de decoração, além de salas cobertas de estantes com livros, só o que me interessam são as cozinhas. Tenho recortes delas pregadas em frente ao computador como garantia de esperança, acolhimento e um respiro para a vida sem concretude da produção intelectual. A minha não tem espaço para mais nada tantas são as panelas penduradas, colheres de pau sobre a pia, facas estendidas sobre metais, cestas com cebola e alho e batata. Fora a coleção de livros de culinária. Os gastos e sujos da Julia Child do tempo de experimentação fracassada, pobres das crianças, na minúscula cozinha em Nova York. Os impecáveis da Nina Horta porque só os leio no sofá, divertindo-me com a literatura sofisticada de forno e fogão. O apenas para ver, com receitas espanholas e louças desenhadas do Picasso. O das carnes e pasqualinas uruguaias por razões do coração. Tantos outros. Que posso fazer se a profissional de feng-shui, alçada num momento em que tudo dava errado na vida, mexeu na casa inteira e só me perdoou a cozinha, identificando a excelente energia daquele ambiente? Caso-me com um homem que ama fazer, servir e comer. Uma contradição desmentida com amor todos os dias. Peço perdão àqueles que decepciono com minha convivência insípida. Perdão pela falha de caráter. Prometo tentar ser uma pessoa melhor. Senão por tudo que o prazer gastronômico propõe, pela cumplicidade no momento de alegria que a mesa garante.

Tantos amores

Posted on 20 Janeiro, 2018

Uma mulher pode ter muitos amores. E pode até se casar com um ou mais deles. Casar-se com um amor não invalida os outros, que permanecem boiando de longe na mesma água. Apenas no papel, reconhecido pelo juiz, é que só vale um casamento, o que, cá entre nós, nunca valeu de verdade. Certa vez, registrando algum documento no cartório, fui flagrada gaguejando meu estado civil. Eu não me sentia casada apenas com quem estava casada. Havia espaço no meu coração para outros eventuais amores. De certa forma, naquele momento, eu era solteira. Foi aí que me faltou firmeza. Tentei descrever esse estado de espírito, tão distante do civil, com a poesia e a profundidade que ele pedia. Não alcançou: Minha senhora, bigamia é crime, sabia? Preferi não argumentar com o funcionário do cartório que, além de tudo, me pareceu um marido burocrático, daqueles que só reconhecem a sua firma quando fazem sexo com a esposa. Esposa não é mulher. O manual interno da Folha de São Paulo, há muitos anos, sugeria que os jornalistas usassem o termo esposa quando se referissem a uma mulher casada com alguém citado na matéria, a esposa de x ou a ex-esposa de y. Como se a breguice se estendesse de estar noiva até ser esposa. Desposar é antônimo de acasalar. Bom mesmo é quando numa disputa de mulheres, uma delas adota “o meu homem.” Muito mais quente do que “o meu marido”, que fica morno no instante em que se pronuncia o status legalizado. Na cena de um filme, a mulher exigiu sair ao lado do marido na foto da carteira de identidade dele. Revelava, por trás da piada, a necessidade inevitável de ser dono da pessoa que se ama. É legítimo querer documentar para sempre a sensação momentânea de propriedade que a paixão impõe. Eu preferiria a documentação assinada com nossos nomes pela fumaça de um avião sobrevoando a praia diante dos olhos de centenas de testemunhas. Vai com o vento, mas é muito romântico e honesto. As testemunhas da paixão alheia deveriam ser como os banhistas observando no céu o amor entre duas pessoas. Como nos casamentos em Las Vegas que vemos nos filmes. As testemunhas lá, como aqui, são desimportantes. Apenas emprestam as suas presenças para aquele arroubo do coração. Testemunha de um casamento meu, a amiga seguiu conosco numa longa viagem de lua-de-mel de carro e quase foi deixada na estrada, arrependidos que estávamos de tê-la convidado. Foi na euforia da bebida, ela estava linda na cerimonia, tinha uma bolsa vermelha que me encantou e um decote profundo que encantou meu marido. Nunca mais a vimos e o casamento eventualmente acabou.

Na poltrona da frente do avião em que me encontro, o rapaz descansa a cabeça no ombro do outro e deixa à mostra a marca branca da aliança no dedo anular. Me lembrei de quando os homens escondiam a aliança para enganar mulheres solteiras e a gente fingia que não percebia para não perder a noite também. Aqui, acho mais fácil que seja a marca assumida do fim de uma história recente. Uma declaração de amor escancarada. Ou seria o proibido que excita? Não importa. Do meu privilegiado ponto de vista, observando os cocurutos colados, está claro que nesse momento, eles estão casados enquanto dure.

Casamento ortodoxo

Posted on 10 Janeiro, 2018

A amiga, fotógrafa oficial de eventos da comunidade judaica hassídica, de Nova York, fez o convite que há muito eu esperava e nos levou, eu e minha filha, como assistentes num casamento no Brooklin.
Nevava naquela noite, desci do carro, escorreguei no chão congelado do estacionamento e caí de joelhos. Voou a escadinha que ela usa para fazer as fotos do alto, acima dos chapéus de pelo pretos usados pelos homens durante a cerimonia. Segui manquitolando, um frio de lascar, na escuridão e no silencio do bairro, ela puxando um carrinho com o resto do equipamento num passo apertado e decidido. Não é tarefa para qualquer um. Os casamentos atravessam a noite e ela só recolhe as traquitanas depois que o ultimo convidado sai. É judia, nada ortodoxa, mas conhece todas as regras e excessões, os ângulos permitidos, os não autorizados por essa comunidade ultra-conservadora. De vez em quando, avança o sinal e arrisca uma bela foto de algum detalhe emocionante, curioso e proibido. A mãe preparando a filha para a cerimonia, a menina com as mãos branquíssimas sobrepostas. Um registro que vale a trabalheira oficial. Apresentamos-nos na entrada do salão, as duas mal ajambradas em uniforme de guerra, paramentadas de preto da cabeça aos pés. A autoridade à porta, barba e cachinhos nas costeletas, ortodoxamente vestida com chapéu e casaco longo pretos e o talim, um xale religioso com tzitzit, as franjas nas pontas, olhou feio como se desconfiando acertadamente das nossas origens e intenções. Ela atravessou a hierarquia masculina e e entramos.
O enorme salão dividido por um longo biombo, um lado para as mulheres, outro para os homens. Do lado de cá, onde ficamos, mesas decoradas esparramadas nas laterais, dezenas de crianças correndo e um estacionamento de carrinhos de bebê com os bebês dentro. O lado de lá, onde homens que me pareciam gêmeos entre si, cantavam e dançavam abraçados. A gente espiava por uma fresta que as convidadas tinham aberto e onde se divertiam como crianças fazendo coisa errada.
Seguimos com dificuldade as instruções técnicas carregando por toda parte a escada e um mastro com a luz, tentando ser discretas em nossos trajes camuflados e não sendo. Trocamos olhares de viés. A amiga circulava desenvolta, montando grupos, atendendo pedidos para registrar um ou outro familiar, ela também personagem da cena. Atravessar o ritual era mergulhar num mundo fantástico, vindo de outros tempos, parado nesse tempo.
A adolescente proibida de sacar o celular. O que acontece ali, fica ali. Eu queria fotografar na memória cada instante da cerimonia emocionante e, de certa forma, triste. Uma noiva menina, escolhida pelas famílias, mal conhecendo o noivo, seguindo obediente o curso previsto pela religião. Cobrir-se respeitosamente até os pés, cortar o cabelo, usar uma peruca com um lenço por cima, ter muitos filhos e não se interessar pelo que acontece fora da comunidade. Chegou a sua vez. Iluminando o ambiente escurecido pelas roupas dos convidados, ela surge frágil, imaculadamente vestida de branco, véu sobre o rosto, as mãos claríssimas de uma vida na sombra tocadas pela primeira vez pelo noivo.
Na volta, o carro sambando no gelo, a musica no radio acompanhando o ritmo, eu fechada em silencio, profundamente perturbada pela experiência. A amiga checa as mensagens no celular e suspira: amanhã tenho outro, acho que nem vou tirar o equipamento do carro.