Questão de gênero

Posted on 19 dezembro, 2020

O amigo liga aflito. Preciso da sua experiência: gravidez emburrece? Acho que é brincadeira e entro. Claro! Ainda há pouco, dei com uma mulher em adiantado estado de burrice no supermercado. Uns sete ou oito meses. Queria que o funcionário explicasse por que banana nanica é a grande. Não riu. Meu casamento acabou, disse, não reconheço minha mulher. Transformou-se numa criatura primitiva, não raciocina como a pessoa evoluída que foi, não alcança nada além do que é instintivo. Sabe como é? Não sei. Tudo agora é preto ou branco, não tem meio tom. Quando tento elaborar, ela lança um olhar vazio de quem já não está mais ali. Ouço. Falta-me energia para iluminar a incompreensão masculina. Dizer que somos animais durante a gravidez é reduzir o processo mais humano que uma mulher experimenta na vida. Assistir o corpo transformando-se irreversivelmente, esticando, pesando, arredondando para abrigar outra pessoa é perturbador. Carregar o barrigão sabendo que ali dentro se desenvolve uma criatura que amanhã estará vestida, comprando pão, clareando os dentes, lendo um livro, é muito estranho. A consciência impartilhável da gestação com tudo o que ela significa pode ser enlouquecedora. Ser livre nesse momento é estar só. Tento mostrar naturalidade. Nós todas vamos para um lugar onde não cabe mais ninguém e voltamos depois acompanhadas. Não se preocupe. Ela já está comendo terra?

Corrigindo

Posted on 14 dezembro, 2020

E os amores??
Auditados??
Aquietados?? Odeio essa merda de corretor!
Achei injusto o amigo xingar o corretor nesta mensagem que mandou para mim. Faz todo sentido numa certa altura da vida perguntar se os amores estão auditados. Eu responderia, sim, meus amores foram analisados, revistos, discutidos. Não só pelo filtro freudiano, jungiano em incontáveis sessões de terapia ao longo dos anos, como pela escrita, onde confessei meus pecados e fiz deles minha literatura. Sobretudo, auditei com Deus, mortificada pela culpa dos tantos prazeres que esses amores me deram. Então, meu amigo perguntaria se estão aquietados. E eu diria que aquietar os amores significa acalmá-los, aqui o corretor concordaria, e isso eu não tenho intenção de fazer nem agora nem nunca. Ao contrário, chego pertinho, cutuco, rego com água fresca, dou uma chacoalhada e se cair alguma coisa, folha ou fruta, sinal de que está vivo em algum lugar da memória, deixo que me atormente um pouco que é para ter certeza de que estou viva também.

Tempo

Posted on 11 dezembro, 2020

Ajeitou o pano de prato no puxador do fogão de forma que a vira do bordado ficasse para fora com as pontas dobradas do mesmo tamanho. Nesse gesto, repetido ao longo do dia, a vida inteira, ninguém tinha reparado. Era um capricho com ela mesma, o de manter o pano alinhado como quem checa de vez em quando o cabelo ou o brinco na orelha, ou ainda, uma mania curta, um jeito de pontuar as suas atividades na cozinha, devolvendo involuntariamente o pano estendido a cada uso até o próximo movimento. Foi só muitos anos depois, quando a criança veio com a mãozinha esticar o pano, que a tia se deu conta, riu e falou alto, gente, ela faz igualzinho à mamãe! O que a menina buscava era ver o desenho todo pintado no tecido, a cena da fazenda com a vaca e o bezerrinho, o homem de chapéu no cavalo e o cachorro sorrindo. Não havia nenhuma intenção vaidosa, nenhum traço de cuidado na cozinha, ao contrário, era a história longe dali que ela queria e ninguém entendeu. Fez que achou graça também e voltou o pensamento para a bisavó, de quem ouvia falar ou se dava conta da existência pela primeira vez. Quem seria a mãe da tia? De excitação, chacoalhou o corpo. Que maravilha! Quantas incontáveis histórias em quantos panos ela teria conhecido! Eu e a mãe da tia, nós duas, o nosso segredo escondido, decifrado, bordado nas figuras dos panos de prato! Voou para a gaveta.
Naquele dia, lá atrás, era um peixe que a bisavó preparava. Foi pescado no açude e, apesar da água escurecida pelo barro que veio com a chuva, tinha a pele clara e a carne cor de rosa. Cheirou. Não era por ser peixe. Cheirava o que lhe caía às mãos, o opaco, um livro, uma tesoura, uma caixa de papelão. Só para provocar a memória. Abriu, limpou, acomodou o almoço de olho arregalado na travessa. O olho imóvel do bicho parou os olhos dela também. Entre dormindo e acordados, fixos no nada. Lembrou-se de quando era pequena e viu um peixe boiando no rio, a barriga inchada. Mostrou para o pai. Está morto, respondeu. Morto de quê, se não o pescaram? De velho, uai. E existe peixe velho? Pensou, mas não ousou retrucar. Foram muitos dias e noites povoadas de peixes velhos, arqueados, com barbatanas brancas e olhar cansado de peixe quase morto. Chacoalhou o corpo. Lavou as mãos, cheirou, ajeitou o cabelo e o pano de prato na porta do fogão.

O tombo do gato

Posted on 5 dezembro, 2020

O tombo do gato que lhe fraturou a perna, fosse noutro momento, não teria o mesmo impacto. Foi o tombo dele e a infecção pulmonar da diarista e a possível Covid dos amigos, de familiares e da terapeuta. O pé de hortelã que secou. O câncer da amiga que reapareceu. As tantas pessoas ficando pelo caminho. O acidente do gato nos pegou num momento de fragilidade e medo. Estávamos nos equilibrando, como ele, num beiral estreito, qualquer vento nos ameaçando tirar o chão. Estávamos todos os dias recontando os dias, comemorando um quase nada, o fato de estarmos vivas e saudáveis até aquele dia. Um calendário registrando o que não merecia registro. O susto com o gato acelerou o susto esperado a qualquer momento, a adrenalina dos sintomas identificados, o resultado do teste, a notícia de mais alguém doente. A falta de notícia é uma boa notícia, diz o ditado americano, agora mais verdadeiro do que nunca. Torcida e reza e esforço para que tudo siga exatamente igual, dia após dia. Para que nada saia do lugar. O gato caiu e se machucou e sofreu e sentimos culpa pelo que não cuidamos o suficiente, nós que só fazemos cuidar. Como se cuidar do que é vivo fosse a única tarefa de cada hora, cada dia, cada mês. O acidente do gato nos desestabilizou, chacoalhou o chão feito terremoto, tirou as coisas do lugar, deixou rastro de pó pela casa que vínhamos limpando obsessivamente para enganar a sujeira interna do momento. O tombo do gato, ele que salta, rola, se estica, sobe, voa, aterrisa, nos tirou a firmeza sobre as patas, a garantia de que a nossa natureza inteligente nos protegeria. Provocou desarmonia em cadeia. Já não estávamos seguras de nada, da receita da comida, da posição na yoga, da qualidade do sono, dos planos para depois de amanhã. Desaprendemos a nos manter de pé, a caminhar com leveza, a nos distrair com pensamentos e emoções longe daqui. Nos demos as mãos para não cair também.

 

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Tudo já foi escrito

Posted on 3 dezembro, 2020

Tudo já foi escrito, de todas as formas, usaram-se todas as palavras, deram ordens parecidas a elas, ou as desordenaram, montaram-se frases invertidas, conjugaram-se os verbos nos seus tempos possíveis, pontuaram tudo igual. Todas as histórias foram contadas, todos os efeitos literários, os truques esgotados, a verdade esgotada, a mentira esgotada, nenhum novo personagem, nenhuma biografia original. Tudo já foi descrito, as sensações, as lembranças, as infâncias, as adolescências, as velhices, as mortes, todos os romances foram inventados, rememorados, os sinônimos, o contrário deles, usados, gastos, os prazeres necessários repetidos, os reais, os imaginários, fantasias, as mesmas, paixões rimadas em verso, estendidas em prosa, todo o abecedário, em todas as línguas, os crimes em versões diferentes, o riso dramático desde Dostoiévski, desde Shakespeare, as tragédias, as grandes e as pequenas, no momento, em suas consequências, relatadas e sofridas ou nada. Fim.

Pedrada no coração

Posted on 3 dezembro, 2020

Abro os olhos e dou com a Manu já bem perto da cadeira, magrela no biquíni, pezinhos enterrados na areia. O sol e o calor queimando tudo. Duvida que eu jogue uma pedra em você? Aos dois ou três anos, já e sempre em atitude combativa, espera imóvel a resposta. Não me dei conta de que aquele momento O Estrangeiro pudesse “… destruir o equilíbrio do dia” e arrisquei: Duvido.
A pedra, escondida na mãozinha dela, voou certeira e me cortou de leve a testa. Cobri o rosto mal acreditando e chorei, de dor e de susto. Ela assustou-se também, mais com as minhas lágrimas do que com o sangue, sobretudo com o impacto da realidade, e seguiu calada atrás de mim para dentro da casa. Mais tarde, curativo e tal, vendo-a brincar distraída com um gato, compreendi a sua necessidade de ser notada, magrela no biquíni, pezinhos enterrados na areia, por aquela mãe tomando sol de olhos fechados para ela. E me deu uma vontade cheia de culpa de colocar no colo e cobrir de beijos a criatura malcriada. A psicologia absolveu a sociedade moderna de todos os crimes.

A tia solteira

Posted on 26 novembro, 2020

Pouco antes da tia morrer aos 103 anos, graças a uma providencial mudança nos medicamentos, a cabeça voltou. Reconhecia todo mundo, estava atualizada sobre as histórias pessoais de cada um, sabia o preço da saca de café e do latão de leite, acompanhava atentamente a política e a economia do país, tinha e emitia opinião sobre tudo. Foi uma virada num jogo quase perdido. Por um período, ela falou absurdos, trocou nomes, chorou e riu na hora errada. Estávamos tristes com a perspectiva de não tê-la conosco até o final. Cutucando daqui e de lá, o médico propôs um movimento diferente e a resgatou do mundo sem memória. Anunciada a conversão, interou-se dos fatos, mortes, nascimentos, separações, falências na família e voltamos a conviver com ela como se aqueles anos tivessem sido só um intervalo ruim numa história boa. A tia era solteira e foi na sua casa, a que herdou dos nossos bisavós, em Guaxupé, que a maior parte dos encontros familiares se deram. Todos os domingos, na longa mesa da copa, pelo menos cinco gerações de mulheres, em diferentes conversas cruzadas, conversavam. Fomos educadas com rigor a não perguntar o óbvio e prestávamos muita atenção para não perder nada. Esparramados pela sala e no alpendre, os homens se colocavam em duplas ou trios que é como dão conta de acompanhar um assunto. Num canto, estavam sempre um tio e o filho que moravam juntos na fazenda e, no entanto, passavam a tarde ali, entretidos, conversando um com o outro. De vez em quando, aparecia um primo com distúrbios mentais vestido de farmacêutico ou frentista do posto, a profissão que estivesse abraçando no momento, todo mundo na cidade colaborava, entrava, dava um recado ou entregava alguma coisa e saía. Muitos anos mais tarde, minha filha mais nova soube que a tia morreu solteira e perguntou: mas não virgem, né? Não se conformava de que ela não tivesse nem namorado. Que, se tivesse namorado, obrigatoriamente teria casado. Não entendia como era possível que alguém passasse a vida sem sequer beijar na boca. Eu mesma nunca tinha pensado no assunto, entretida que sempre estive com meus próprios beijos e casamentos, e só então observei que, sim, naquele tempo, não casar significava não transar. Especulando sem fonte segura que esse não era assunto da conta de ninguém, concluímos que a tia, na sua sábia solteirice, ouvindo as queixas e relatos dramáticos atravessados na mesa de domingo, constatava que casamento e prazer nem sempre andam juntos. À noite, tercinho nas mãos, ainda comiserando, certamente agradecia a Deus a sua sorte. Antes virgem do que mal acompanhada.
Você, Cristiana Beltrão, Laura Vargas e outras 123 pessoas
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Sereia

Posted on 19 novembro, 2020

Veio séria, ereta, lenço e avental escuros, máscara cobrindo o nariz e a boca, carregando a bandeja de café. A luz bateu no brinco balançando no ar e eu só esperei ela virar para confirmar a bunda grande numa bermuda de lycra justa. O contraste entre a fachada comportada e a traseira provocante aparentemente não chamou a atenção de ninguém e eu me senti um homem, no sentido mais masculino da palavra, porque só pensava naquilo. Na mulher gostosa e sensual mal escondida naquele uniforme, debochando de nós. Não de mim, que saquei logo a sua natureza. Tive vontade de ir atrás e dizer a ela que eu sabia de tudo, do ridículo daquele uniforme e a bandeja estendida. Queria ir até a cozinha dizer que eu adivinhava o seu peito decotado, o batom debaixo da máscara, o rabo da sereia.
Que eu era mais do que um homem. Que não me fizesse de tonta.

Comadres

Posted on 16 outubro, 2020

O ônibus saiu quase vazio de Guaxupé rumo a São Paulo. Em pouco tempo, a conversa atravessa o corredor:
– Comadre, vem sentar aqui na frente.
– Ai, não vou, não. Já me arranjei aqui no fundo com as sacola.
– E esse ano que não vira, hein? Virasse, tava melhor.
– E então.
– A Marlene ficou lá cuidando dos cachorro? Tá bebendo muito ainda ela?
– Toma aquele… como se chama?
– O Domeck.
– Então. Mas dá conta do serviço, traz a casa sempre limpinha, arruma a comida, as criança sempre arranjadinha. Faz tudo até às três. Deixa até a janta pronta. Aí, começa beber e vai até a novela.
– Tá certa, ela. O Jaldair sempre bebeu. Dormia agarrado na cachaça. Ela dizia, escolhe, Jaldair, ou é eu ou é ela. Ele escolheu a cachaça. Então, a Marlene saiu do quarto. Dorme no sossego dela na sala. Nem tem que aguentar as graça dele no meio da noite. Ficou no sofá com tudo bem arranjadinho, lençol de cima, cobre leito e tudo.
Silêncio. Fecho os olhos. Seguem:
– Jaldair é trabalhador demais. Se acaba lá no terreno do Waldir, todo mundo sabe. Aí, bebe e chega em casa que não se aguenta, falando besteira. Foi tanta desfeita que ela deu com o cabo da vassoura nele outro dia. Marcou tudo as costa.
– Num conta.
– Vai vendo. Ela também tinha tomado que já era pra lá de seis e meia. Você agora trabalha na polícia, é? Ele perguntou. Aí, ela disse que se fosse polícia tinha logo jogado ele no mato, ponhado bebida nele todo e tocado fogo.
– Cachaceiro.
– Então.
Você, Roberto Gervitz, Matthew Shirts e outras 167 pessoas
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Dia do professor

Posted on 16 outubro, 2020

Fui uma aluna medíocre, não prestava atenção, falava o tempo todo, zanzava pela classe atrás de diversão miúda, espetar a bunda de alguém com o compasso, assoar o nariz na cortina, jogar a borracha no chão para espiar a calcinha das freiras. Nunca era culpa minha, sempre fui queridinha das professoras. O tamanho ajudava. Ser pequena quando a gente é pequeno provoca aquela fofurice nos adultos. Ao longo dos anos, eu e minha melhor amiga, a Stela, nos revezávamos na primeira posição da fila por ordem de tamanho. Depois de muito tempo, ela confessou que não foi gentileza me ceder a frente no primeiro dia de aula, gesto acolhedor que eu guardei no coração. Foi pelo prazer de ver que havia alguém menor do que ela no mundo. A Stela era uma aluna excepcional, fazia as lições todas, tinha um estojo arrumado com lápis apontados e trazia lanches de pão de forma sem casca recheados de presunto e queijo ou salaminho com manteiga e cortados na diagonal como os das festas. Eu tinha inveja do caprichado da vida dela. Mãe que não trabalhava fora e uma disciplina doméstica que me acalmava. A minha casa era alegre e barulhenta, mais irmãos e menos mãe, uma bagunça, cachorros que fugiam, gatos que atacavam passarinhos, até macaco teve. A gente vivia numa correria louca para dar conta das atividades, natação, inglês, brincar com os vizinhos na rua. Tinha que caber tudo até escurecer. A aflição nunca passou e, mesmo sem sair do lugar, sigo correndo até hoje. As professoras gostavam de mim porque eu era apaixonada por elas. Não era mentira, mas eu tinha consciência do poder da sedução e caprichava nesse aprendizado. Tirava nota baixa, zero às vezes, e minha mãe ouvia desconfiada elogios sobre a minha inteligência não refletida nas provas. Uma professora, a tia Inês, a quem eu amei profundamente e sofri com a separação, sempre me punha no colo na hora da roda de leitura. Ela usava peruca, descobri pela nuca, esmalte cor de vinho e um perfume que devia ser dulcíssimo porque eu adorava. No final daquele ano, a tia Inês me convidou para ser dama de honra no seu casamento. Fiquei dias sem dormir imaginando a entrada triunfal na igreja, a atenção, o vestido, a tiara, a cestinha com as alianças, ela me explicou a importância da minha tarefa. Cresci uns centímetros na auto-imagem. Minha mãe conversou com ela, agradeceu e disse que eu estaria no meio das férias em Guaxupé e não me traria. Fiquei angustiada, queria fazer parte da história dela, tinha medo de que ela me esquecesse. Eu nem chorei porque naquele tempo tinha medo de expressar tristeza e nunca mais ser feliz de novo, mas reclamei com minha mãe mais tarde. Ela nem ligou. Aí, eu não liguei também.