Guardador de carros

Posted on 21 outubro, 2017

No começo era só um guardador de carros no dia da feira. Embora desse as costas para os carros e não guardasse nada, os frequentadores daquele quarteirão estavam acostumados à sua figura negra, alta e forte e porque não ameaçadora, protetora. Falava sem parar, dando instruções sobre vagas e manobras mesmo quando o carro já estava estacionado. Como um comentarista estendendo-se muito depois da jogada. E segurava a porta, as sacolas, o carrinho a ser dobrado no porta-malas. Acenava em longas despedidas em voz alta recomendando a Deus que cuidasse do motorista na volta para casa, o carro cheirando a fruta, peixe, cominho. Mão para fora da janela, o motorista, invariavelmente, agradecia a atenção exagerada e garantida.
Aos poucos, foi soltando as amarras e a voz e cantava com um microfone invisível na mão. A esquina entre o pasteleiro e o florista, um palco improvisado e publico garantido. A turma distraída com o copo de garapa na mão e a coreografia no fundo. Caretas e corridinhas à Bethania, braços escorridos ao longo do corpo. De tempos em tempos, lembrava-se dos carros, largava tudo, abria a porta, apontava um lugar vago, ajudava com as compras. Ofegante no intervalo da apresentação. A turma acompanhando sua trajetória na direção da razão perdida.
Ontem, ele estava maquiado. Sombra azul, blush, batom. Uma dezena de presilhas no cabelo e, ainda assim, despenteado. Uma saia sobre a calça e a camiseta com decote rasgado até a metade do peito. Descalço. Andava apressado de um lado para o outro com o olhar aflito. Não gostei. Ninguém gostou. Ainda falava sem parar, mas agora baixinho, acelerado, quase incompreensível. Fechando a porta de um carro, o rosto colorido na janela, queixou-se de qualquer coisa para o motorista. É que você é muito sensível, disse respeitosamente o senhor de cabeça branca.

 

Mexico

Posted on 17 outubro, 2017

Estávamos sentados no banco da impressionante catedral de Guadalupe. Eu e o menino mexicano. Percorríamos a construção lentamente com os olhos, procurando dispender tempo em cada detalhe. As colunas torcidas, os arcos perfeitos, a luz atravessando os vitrais e explodindo nos lustres e o teto, perto do céu, com figuras aladas pintadas à mão. Que escada chegaria até lá? o menino se pergunta. O artista trabalhava deitado? Não lhe doíam as costas? eu querendo adivinhar. Anjos e passarinhos voando pela nave dourada. Nós dois torcendo as cabeças, acompanhando o movimento. Os santos e suas histórias esculpidas com dramaticidade, sangue, dor, sacrifício em tamanho original. Os olhinhos dele se abrem, as pernas chacoalham no ar, quer comentar com a mãe, mas ela é dura e fervorosa, faz com que se cale com um gesto. Ele atende. Sinto mais tristeza do que medo. A gente humilde submetida a uma autoridade inquestionável. Eu tenho licença, faço malcriação, sou desobediente. Não o menino ou a sua mãe. Penso em minha mãe também, só para não desacompanhá-lo. À nossa frente, uma senhora com traços índios e véu na cabeça reza com um pirulito na boca. Um jovem obeso e sujo, com visíveis problemas mentais, senta-se ao meu lado querendo conversar e não sei como, toma a minha mão e a beija. Digo que meu marido ficará muito bravo e ele se vai. O menino testemunha assombrado. No corredor central, uma loira de cabelos cacheados, corpo curvilíneo, vestido colorido justo, ajoelha-se e segue assim, arrastando-se pela passadeira vermelha e rezando até o altar. Os fiéis adivinhando os pecados nos joelhos ralados dela. O menino chama a mãe novamente, bate no peito dela, cutuca, quer saber. Ela continua impassível na conversa com Deus e perde a nossa comoção. Paciência, colega, eu digo, o arrebatamento também passa. Um dia você deixará de ser menino e eu, com sorte, me tornarei uma mulher de fé.

Kama Sutra

Posted on 16 outubro, 2017

Dona Marina, os rapazes da assistência técnica estão subindo. Desligo o interfone toda serelepe, saltitando pela cozinha. Desmentindo as estatísticas, contra todas as expectivas, eles vieram. Corro para o quarto para ver se não deixei uma calcinha, um sutiã jogado, tiro da estante alguns noivinhos de enfeitar bolo, são cerca de 150 casaisinhos na coleção, para abrir o espaço por onde passam os fios da televisão. Enrolo o tapetinho ao lado da cama onde só piso sem sapato, até os gatos sabem disso, para que eles, que Deus me perdoe a maldade, não arrastem os calçados imundos da rua ali. O porteiro disse, os rapazes. No plural. Puxa vida, que regalia, a coisa é profissional mesmo! pensei. A campainha soa e eu os conduzo ao quarto. Dá licença, diz o mais alto na ponta do corredor. Gosto muito desse gesto que soa sempre como de educação de casa. Mostro a televisão sem vida, conto a historia dela, peço que tentem tudo o que for possível, não quero outra, quero essa de volta. O baixinho é mais forte ou é o encarregado do trabalho pesado. Li em algum lugar que as pessoas mais altas tem privilégios profissionais que nós, os baixos, não temos. Ele abre os bracinhos, abraça o aparelho e o arranca da parede. Quando se vira, eu grito descontrolada porque antevejo o seu movimento de colocar a TV sobre a colcha branca. Corro para o banheiro e pego uma toalha de banho para forrar a cama. Ele parado, metade homem, metade TV. Muito casamento já acabou por menos do que isso, moço. Ele concorda em silencio. O mais alto vem com a chave de fenda e retira os parafusos usando as pontas dos dedos, como se não precisasse força, mas inteligência. Essa era a atitude e eu e o baixinho mostramos respeito. Ficaram ali discutindo um pouco, fazendo que era coisa complicada, eu tentando ler as expressões no rosto deles. O mais alto olhou, então, para um amontoado de fios na parede e fez uma observação qualquer sobre a entrada ou saída que eu não ouvi porque nesse momento me dei conta de que esqueci na estante, na altura dos tais fios, dois vidrinhos japoneses muito antigos com desenhos do Kama Sutra que alguém comprou num mercado de pulgas na Europa e me deu de presente. O alto chamou o baixinho, apontou na direção dos vidrinhos e o os dois ficaram ali apertando os olhos e não sei se gostando ou não, eu querendo interromper, oferecendo um copo d’água, eles não aceitando. Tomei coragem e perguntei se não era bom tirar os vidrinhos, fui avançando, e um deles disse que não estava atrapalhando. Me arrependi de mostrar que estava vendo o que eles estavam vendo. Voltaram à televisão, seguiram trocando peças e, por fim, a penduraram novamente na parede, o menor ainda ajeitando o aparelho e o alto com o controle na mão, testando. Antes de sair, o baixinho recolocou os noivinhos com delicadeza e ajeitou os vidrinhos japoneses, desconfio que só para tocar neles. Eu sorri sem graça e puxei a barra do vestido que me pareceu curto naquela hora.

Domingo no parque

Posted on 12 outubro, 2017

Me convidou e não sei dizer não. Nos encaminhamos suados, em roupas de corrida, até o Quiosque da Saúde, uma tenda armada no Ibirapuera pela turma da prefeitura. Além de checar a pressão, diabetes e outras preocupações de idosos frequentadores do parque, oferecia um curso rápido de socorro à vítimas de uma parada cardíaca. Não se interessou pela avaliação clínica, queria salvar vidas. Saí da fila do monitoramento. A sombra gratuita contra o céu azul num calor infernal era, inegavelmente, sedutora. A enfermeira Danyelle, com y e dois ll no crachá, fazendo jus ao estereótipo, só não usava uniforme decotado e curto: era loira, bonita, gostosa e atenciosa. Ladeada por outras duas mais fora de forma, que teatralizavam as caretas e contrações da vítima, repetiu os procedimentos, passo a passo, diversas vezes, sem pressa, cobrando feedback do grupo. Se ele parece não estar respirando fazemos o que? Cerca de dez pessoas de todas as idades e sexos, ajoelhadas em colchonetes em frente aos bonecos de borracha partidos ao meio. Do umbigo para baixo não importa numa parada cardíaca, aprendemos. Demontrou como usar um desfibrilador para uma platéia descrente de encontrar o aparelho, obrigatório num local publico. Fizemos mais exercício pressionando o peito dos bonecos do que em qualquer equipamento de academia. Cento e vinte vezes e mais outra série de 120 compressões manuais ininterruptas sob pena de matar a vítima se perdêssemos o ritmo. Com força: mais importante bombear o coração do que manter uma costela. A mulher ao lado queria saber sobre respiração boca a boca. Está fora de moda, não se usa mais, quem diria! Meu pé dormiu. Levantei-me com dor nas costas, os joelhos e as mãos vermelhas, o boneco imóvel. Há outras funções para os socorristas maus fora de forma. Posso, por exemplo, afastar curiosos da cena. Ou ligar para o SAMU agora que decorei o número 192. Muito eficiente a enfermeira Danyelle.

Um par no celular

Posted on 10 outubro, 2017

Por insistência das amigas, adentrou o Tinder. Já tinha espiado de fora, aquele não era lugar para uma mulher disponível há tão pouco tempo. Devia cumprir o luto da separação por, pelo menos, um ano, uma conta que estabeleceu a partir da média da maioria das mulheres largadas, versus a raiz quadrada de uma ou outra mais assanhada, noves fora a opinião da mãe e das tias. Cedeu com reservas. Vou só para conhecer, sem compromisso de ficar.

Sozinha em casa, ligou na novela para disfarçar o interesse, digitou o endereço e seguiu, pé ante pé. Correu os candidatos com o coração aos pulos com medo de estar sendo observada por Deus, de haver uma câmera no computador registrando sua vontade, de um filho dar flagrante.
Desenvolveu critérios instintivos. Não queria foto de homem com a mãe, com filho, com cachorro, com carro, barco ou moto. É achar que a gente é burra, não caio. Foto na piscina de casa, na churrasqueira, na cozinha com pano de prato no ombro, ela descartava. Foto usando óculos escuros, nem pensar. Quero ver a cara do malandro frequentador dessa joça. Não aceitava ninguém formado em faculdade com prefixo Uni. Sou dessa opinião, diga-me que escola frequentaste e te direi quem és. Podia até ser leonino, convencido e vaidoso, mas preferia homem de touro por razões óbvias. Gêmeos, signo do ex, só com carta de recomendação. Nome começando com W e ou terminando com N estava fora. Acho cafona. Descobriu que era exigente quanto à aparencia. Não valia barriga grande, perna fina, dentes ruins, barba até o peito, peito sem pelo ou muito peludo. O bairro era determinante. Não sou mulher de atravessar a cidade por causa de homem.
Ali ficou ciscando, rodeando, talhando a companhia perfeita, até que um dia, dividiu um uber pool com Wilson, professor da Unip, que morava na zona leste onde ela ia consultar a taróloga a cada seis meses e ao Tinder nunca mais voltou.

A torta do dentista

Posted on 10 outubro, 2017

Boca aberta e babador. Um celular toca, eu e meu nada ortodoxo dentista nos olhamos, não são os nossos telefones. Ele então se lembra de que é o alarme avisando que a torta ficou pronta. Liga para casa, pede para a empregada tirar do forno e deixar esfriar coberta com o pano de prato. Volta ao meu dente.

Páscoa

Posted on 10 outubro, 2017

Eu podia ter ido correr no parque. Fui para o shopping. Podia comprar um ovo de Páscoa. Vi o espaço de massagem. Uma tentação ao lado da outra. Fiz as contas, a diferença de preço era pouca, o prazer quase igual e as consequências a gente sabe. Adiei o chocolate. Uniformizada, a massagista era uma versão descontraída da mulher da Suzane Richthofen na cadeia, forte, quadrada, cabelo moicano. Já chegou suada, as bochechas vermelhas. Eu sou um rato medroso, não sei recuar, não sei dizer não, não sei desistir. Encarei. Na salinha apertada, ela esbarrava nos cantos da maca e se desculpava. Eu chacoalhava solidária. Pedi uma massagem relaxante. Ela pediu cinco minutos para se esticar porque tinha problemas na coluna. De bruços, meti a cara na toalha e tentei dormir. Ela queria conversar. Explicou que gostava mesmo era de reiki. Eu ponderei que era conservadora, que fazia massagem escondido da família e que só estava ali porque era isso ou o ovo de Páscoa. Passou o creme e começou a me alisar. Achei que sentia o suor dela pingando em mim, mas posso ter somatizado. Detesto massagista que faz carinho. No dia em que eu precisar pagar para receber carinho, eu compro um cachorro. Ela perguntou se eu estava bem emocionalmente. Respondi que sim já sabendo onde ela queria chegar. Disse que sentia uma energia pesada. Tive vontade de fazer uma malcriação maldosa, mas não o fiz. Ela insistiu perguntando se eu não me doíam os pontos relacionados à emoção. Cutucou aqui e ali. Àquela altura eu só sentia raiva e frustração. Ela, então, entrou num transe e disse que estava se sentindo mal por causa da energia negativa que eu carregava. Tínhamos mesmo que fazer o tal do reiki. Não respondi. Estendeu os braços sobre o meu corpo e ficou ali feito um curandeiro indígena recebendo um espírito. De vez em quando mudava de lugar. Batia na maca. Se desculpava. Fechei os olhos, pedi a Deus que aquilo terminasse logo para eu correr e encher a cara de ovo de Páscoa. Encerrou recomendando que, saindo dali, eu caminhasse descalça na grama ou abraçasse uma árvore: “Você precisa trocar energia com a natureza, colega. Eu fiz o que podia. Olha, estou toda arrepiada!”
25/03/2016

Herói ordinario

Posted on 22 setembro, 2017

Chovia e fazia frio em Nova York. Procurei abrigo no primeiro cinema que apareceu no caminho. Ghost já tinha começado, mas não tive dificuldade de entender que o fantasma era o marido morto que atentava Demi Moore, a mulher mais linda que eu tinha visto na tela e que deu mole para ele mesmo sabendo que não seria uma relação carnal.
A sessão, no meio da tarde, estava praticamente vazia, exceto por um ou outro desocupado aproveitando a meia entrada concedida naquele horário. Tirei os sapatos molhados e os forrei com o NY Post, um tablóide delicioso, agora mais útil do que nunca, cheio de fofocas da cidade, colunistas divertidos e dicas confiáveis de mostras internacionais de cinema e teatro off off Broadway.
Pouco depois, entraram quatro bombeiros, devidamente uniformizados, capas cinza com riscas amarelas fosforescendo no escuro, enormes capacetes nas mãos, e aboletaram-se algumas fileiras à frente. Para ver o filme. Como assim? Bombeiros não podem ir ao cinema. Sentar-se perto de nós, mortais. Comer pipoca. Estariam cabulando o trabalho? Divertindo-se entre um fogo e outro? Não assisti o filme. Queria acompanhar cada movimento deles, uma risada, uma mexida na cadeira. Cadê o capacete? No colo, descansando. Pensei nas botas deles e voltei obediente a calçar os sapatos. Não cabíamos no mesmo ambiente, um sem gritaria, fumaça e ação. Estava desconcertada. A sobrenaturalidade do filme contaminando tudo. Quando a luz acendeu, levantei-me junto com os homens agigantados pelo uniforme e, ainda que não houvesse mais ninguém no corredor, caminhei colada a eles para saber o que viria a seguir. Será que voltariam a ser bombeiros, entrariam no carro e sairiam em disparada por Manhattan fazendo escândalo com a sirene ligada? Se isso acontecesse, estaria tudo resolvido, eu me sentiria em paz sabendo que o mundo continuava a funcionar como sempre, o mundano nas suas pequeninices, o super-heroico sobre nós, cada coisa em seu lugar. Eu precisava urgentemente que os bombeiros assumissem o seu papel supra-humano. Mas eles pararam na banca de jornal e compraram M&Ms.

Casamento na cozinha

Posted on 18 setembro, 2017


Na cozinha só tem lugar para um. O outro entra, no máximo, como ajudante. Não que o outro faça questão de ter lugar ali. O outro adoraria estar tomando sol na piscina lá fora. Gostaria de estar escrevendo bobagens no computador muito além da bancada de mármore. Mas não é politicamente correto deixar o um sem reconhecimento. Cozinhar no final de semana, com ares de hobby, é trabalho duro, exige dedicação, vai além de umas pitadas disso ou daquilo. O outro deve colocar-se à disposição para as chatices desimportantes daquela empreitada. O um não concorda que seja desimportante cortar a cebola, amassar o alho, despelar o tomate, ao contrario, é exigente. Ái do ajudante que não fatiar a trufa como se deve ou se distrair no picar da cebolinha. Se não for para dispensar ao prato a seriedade que ele merece, que vá tomar sol ou rabiscar bobagens no computador. O outro, então, executa o serviço com respeito, de vez em quando, pergunta cheio de dedos e medo se é assim mesmo que o um quer. Ele espia apressadamente e diz que sim. O outro fica aliviado e feliz porque funcionam harmoniosamente até na cozinha. Chega a achar charmoso aquele pano de prato, o seu preferido porque foi bordado pela avó, sujo de sangue e gordura, jogado sobre o ombro dele. Anima-se. Aumenta o volume da musica. Se, no entanto, o um decidir que o outro não está prestando ajuda miúda como esperado, ele avança sem cerimonia sobre a intenção e mostra como seria de fato. É assustador. O outro tem vontade de fazer malcriação, de vez em quando faz, e ir embora. Esbarram-se, as facas cortando o ar, duas cuba é pouco, cotovelos batendo entre as cinco bocas, fica de olho no alho, o um dispara, vingando-se das ordens de uma vida inteira. O um pensa em silencio que faria melhor sozinho. Ou com a assistência da empregada, essa, sim, atendendo o que ele não precisa solicitar. O outro concorda. O embate é mudo para não desandar. O um beberica o vinho, o outro sabe que não deve beber e ajudar. Vai ser servido depois depois, na mesa, com ares de visita, fazendo que vê pela primeira vez o prato enfeitado que já viu nu e cru ali atrás. Comem analisando as dificuldades e conquistas daquela empreitada culinária e concordando, com observações gourmets, que está excelente. O um agradece. O outro saboreia o domingo.