Milagre

Posted on 3 setembro, 2020

O amigo conta que estava na feirinha e por milagre encontrou um livro que queria. Aquela pequena grande alegria, alçada à condição de milagre, me encheu de esperança. Como se o fato dele ficar feliz naquele momento, e depois de novo quando me contava, possibilitasse a qualquer um que o encantamento momentâneo com quase nada se transformasse em algo extraordinário. O menino e a formiga carregando a folha. A tia e o ponto do tricô que deu certo. Meu pai e o peixe na vara. É estender o momento gratificante. Segurar o achado no ar. Veja que a coisa mais besta quando observada pelo poeta é poema. E para nós outros, às vezes, é milagre.

Recomeçar

Posted on 30 agosto, 2020

Tive uma amiga árabe, fomos companheiras durante um período em Nova York quando nossos filhos estudavam numa escola distante e tomavam o Yellow Bus juntos. Assim as crianças o chamavam. Ônibus Amarelo é a perua escolar, a tradicional americana, que já passou por vários modelos ao longo dos anos, mas segue amarela. A cor foi escolhida porque chama mais atenção do que qualquer outra e é sobre ela que as letras pretas do School Bus são visualizadas com mais facilidade, especialmente nas primeiras horas do dia. Uma conferencia organizada em 1939 por Dr. Frank Cyr, um professor da Universidade de Columbia, reuniu durante uma semana especialistas em transporte público, fabricação e pintura de ônibus escolares dos 44 estados americanos. Ali, ficaram definidas as medidas seguras e a cor oficial do transporte de alunos no país. Pelo seu esforço, o Dr. Cyr foi agraciado com o título de Pai do Ônibus Escolar Amarelo.
Mas voltando à minha amiga árabe, a gente embarcava as crianças e seguíamos para uma caminhada atlética de cerca de uma hora à margem do rio Hudson. Ela queria perder peso e precisava. Caminhava maquiada, de saia, camisa e sapatinho de salto. Com muito esforço consegui convencê-la a deixar a bolsa, que ela levava no braço, em casa. Ia manquitolando, suando e gemendo e contando historias bonitas do Líbano que não combinavam em nada com a expressão de sofrimento que carregava durante o percurso. Os piqueniques familiares, as brincadeiras ingênuas com as amigas na praia. Nunca perdia a formalidade. Contou que durante os bombardeios que enfrentou quando morava lá, mantinha um procedimento padrão que os filhos conheciam e acompanhavam. Ao contrário da maior parte das pessoas que corriam às ruas à procura de abrigo como estivessem, pijama, roupão, embrulhados em toalhas, ela vestia-se, colocava os sapatos, sentava-se no sofá da sala e esperava que o barulho terminasse e o prédio parasse de tremer. Por sorte, não sofreu nenhum acidente maior. O apartamento chacoalhava, quebraram-se vasos, quadros, mas não foi destruído. Tinha sempre uma resposta pronta para qualquer situação desconfortável que eu estivesse vivendo. Uma delas era: Volte para casa, tome um banho, mude de roupa, recomece o dia. Esse vai ser melhor. Lembrei disso hoje quando, por distração, li as noticias no jornal e me deu vontade de sumir. Fui tomar banho de novo. É preciso ter fé.
Matthew Shirts, Roberto Gervitz e outras 85 pessoas
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Distânciamento

Posted on 24 agosto, 2020

Quando começamos numa agência de publicidade japonesa, meu chefe advertiu: são japoneses de verdade, não os interrompa quando estiverem falando, não deboche das regras e, sobretudo, não fique tocando neles. Foi como se tivesse me dado uma ordem para fazer as três coisas. Às vezes, simultaneamente. Era avistar um colega japonês, tão distinto, tão silencioso e me dava um comichão, não podia me segurar. Cumprimentava beijando e abraçando, amassando seus ternos e vestidos impecáveis. Fazia uma pergunta e à menor menção dele responder, emendava um comentário e outra pergunta em cima e já ia respondendo como se não precisasse nem ter perguntado. A reação era de desgosto educado. Numa visita ao escritório em Tóquio, vi dezenas de cartazes com o desenho de duas pessoas de perfil com as bocas abertas e a orientação, traduzida por um funcionário local: Conversem entre vocês! Uma campanha para que o ambiente da firma fosse mais interativo. Pedi para levar como prova de defesa das acusações de irreverência corporativa e já ia arrancando da parede, ele sorriu amável e respondeu monossilábico: Não.
Ao contrário do que se poderia esperar, o tempo não flexibilizou as nossas relações e até o fim seguimos, eu avançando o sinal e eles firmes no seu quadrado. Me lembrei disso esses dias. Um metro pode ser pouco, mas pode ser tanto!

Autobiográfico

Posted on 22 agosto, 2020

Fui ter com o amigo, escritor de renome, e arrisquei dizer que andava pensando em, talvez, escrever um livro. Respondeu sem levantar os olhos do computador: Mas não é autobiográfico, é? Todo mundo acha que a sua vida dá um livro. Para mim, isso é preguiça. Menti que nem havia me passado pela cabeça essa vaidade, imagine, estava justamente pesquisando a história de uma família em viagem pelas tundras gélidas da Sibéria quando foi atacada por gigantescas plantas carnívoras que a devorou aos bocados, roupa, sapato, mochilas e tudo. Sobrou uma criança, autora do relato duvidoso. Ah, sensacional! Isso, sim, dá um romance e tanto! Estava agora olhos nos olhos comigo, dois escritores num momento de cumplicidade. Tentei acompanhar o seu entusiasmo disfarçando um sorriso num movimento muscular forçado até doer o rosto. Evoluímos no roteiro da tragédia, ele sugerindo situações do banquete humano para torná-lo mais apetitoso. Disse isso e riu da própria piada. Quase me convenci ali de que, ficção por ficção, a história da família dizimada era melhor do que a minha que nunca teria gente engolida e, longe do cenário exótico siberiano, se passaria basicamente numa cidadezinha pacata de Minas Gerais. Depois, para ser franca, deu preguiça mesmo. Não há movimento sem curiosidade. Não consegui digitar mais do que um parágrafo sobre o assunto e voltei a atenção para os meus pés embaixo da mesa. Quando eles saltitam é sinal de excitação. Sou um jabuti. Carrego minha vida nas costas e conheço o seu peso, paro no momento que quiser, pesquiso para além do meu casco porque viver não é suficiente, e escrevo.

O elefante quadrado

Posted on 19 agosto, 2020

Os pés da mesinha são cabeças de elefante esculpidas na madeira, as trombas se esticando até o chão. Olhos e presas desuniformes pintadas à mão por artesãos indianos. Pétalas e folhas colorindo o tampo como se o animal carregasse uma manta florida. O elefante quadrado esconde-se ao lado do sofá para ouvir histórias que nunca mais serão esquecidas. Como a do primo tido como autista e que na verdade era um anjo. Sentava-se e conversava com os mendigos, levava comida, comia com eles. E um dia, voou. Ou a da tia muito feia que perdoava as escapadas frequentes do marido e era motivo de pena da família para no leito de morte confessar que ela também tinha um amante. E a do tio que andava com a cabeça ruim e mastigou um dos Reis Magos do presépio da casa da filha.
Sobre o elefante há uma vela numa cumbuca de metal decorado. Quando aceso, o fogo desenha figuras que se movem na parede e assombram o ambiente. Mas o elefante indiano não tem medo de nada. Nem dos mortos, nem dos loucos, nem das pessoas que acham que não são personagens das histórias estranhas dos outros.

Lá fora

Posted on 5 agosto, 2020

Na minha janela não passa cachorro caçando lixo, nem cavalo, porco, vaca, bezerrinho indo pro curral. Não se vê mulher carregando roupa na bacia ou homem com enxada no ombro, menino descalço na bicicleta, galinha ciscando. Da minha janela não alcanço as montanhas, a mata, o café, a cerca de arame farpado com um retalho engastalhado nela. Na minha janela a mangueira não madura, a poeira não levanta, o varal não balança, a porteira não bate. Da minha janela não ouço o rio, o pio de passarinho, o silêncio profundo. Não tem beiral na minha janela, nem cortina de renda, nem tranca emperrada. Da minha janela eu não espio quem está chegando. Não debruço para conversar à toa. Não aceno para despedir. A vida não passa na minha janela. Só passa nuvem e avião.

Incendio na infancia

Posted on 5 agosto, 2020

Já estava tudo no carro para a viagem, malas, caixas com comida, travesseiros no banco de trás, o lampião a gás que a tia comprou para pendurar na varanda do sítio. O cheiro chegou antes do barulho da explosão. Por último, a fumaça. O carro ainda na garagem. Corremos para ver. Eu adorava aquela casa e meus cinco primos, três deles, os Irmãos Metralha, assim chamados porque eram muito parecidos e porque juntos incorriam em delinquências juvenis ao mesmo tempo criativas e desastrosas que terminavam em braços e pernas quebradas, pontos na cabeça, raramente num plano exitoso. A casa, no bairro do Sumaré, em São Paulo, não tinha portão fechado nem adulto de guarda nos nossos movimentos dentro e fora dela. Podia-se quase tudo. Era barulhenta e fascinante, cheia de gente e bichos de todas as origens. Cachorros, gato, papagaio. A tia tinha especial carinho pela Magali, uma coruja solta no quarto dela. Era uma bolinha de penas ancorada na penteadeira que, à noite, revelava os grandes olhos e o bico voando por todo o andar de cima. Na banheira morou uma cobra, a Monica. E, durante uma época, havia um jacaré se arrastando pelo quintal. A Seba, que trabalhava lá e era da farra e da autoridade, defendia-se com a vassoura quando ele aparecia na cozinha atrás de comida.
No dia do incêndio, a Seba ainda tentou acudir com pesados baldes de água até perceber que o fogo já escapava ao controle e lambia a janela do quarto em cima da garagem. À gritaria geral misturou-se a sirene dos bombeiros que vieram correndo num escândalo maravilhoso. Estávamos excitadíssimos com as chamas altas e as sucessivas explosões que provocavam. A vizinhança amontoou do outro lado da rua. Mesmo crianças, éramos consultados sobre as condições em que a coisa se deu, nos sentimos superiores, donos do incêndio. O comentário era de que se a perda foi grande deveríamos agradecer a Deus pelo acidente ter acontecido antes de pegarmos a estrada. Aquilo soava trágico, acrescentava comoção ao momento, mas estávamos animados demais com a confusão, o susto, a aventura, para entristecer. Sequer nos passou pela cabeça a possibilidade de ser uma tragédia.
A tia certamente conta outra história, mas não quero ouví-la. A realidade depende da posição de cada um. E eu gosto de guardar a fotografia do ângulo que tirei.
Com Maria Teresa Prado SumaresSilvia Prado SegallPaulo SumaresMarcelo Prado Sumares e Amalia Prado Sumares.

Pesadelo

Posted on 27 julho, 2020

Os dentes soltos da gengiva, posso removê-los com a unha. E é o que faço. Vou metendo a unha e arrancando um a um. Então sinto medo do prazer que é como o de roer as unhas ou de coçar um machucado. E penso, tenho que anotar esse sonho e anoto. Mas como é parte do sonho, não anoto de verdade e, no dia seguinte, já esqueci. Agora veio a canjicada que minha irmã fez e recupero o assunto dos dentes. Preciso contar para a dentista e para a terapeuta. Há interpretações desse sonho. Posso estar me sentindo insegura, frágil. Pior, há um molar com problemas reais.

Uma mala

Posted on 27 julho, 2020

“Minha mala vinha deslizando lentamente pela esteira de desembarque. Era uma mala de couro antiga, do fim da década de 60, eu a tinha encontrado entre as coisas dos meus pais e me apropriei dela porque achei que se adequava ao estilo despojado que adotara naquela fase.” Esta cena de um livro de Karl Ove que estou relendo serve perfeitamente para começar o episódio que aconteceu quando eu morava em Nova York e fui, pela primeira e ultima vez, à Brasília prestar um concurso. Não sei em que momento a formação mineira pesou com força e me levou a considerar um emprego público. Coisa da minha mãe. Deve ter me botado medo do futuro incerto “no estrangeiro”. Não passei. Fiquei aliviada porque gostava de ser jornalista e não tinha nenhum plano de voltar a morar no Brasil naquele momento. No vôo para Brasília, conheci um jovem chef de cozinha francês que estava a caminho de um estágio no Club Med de Itaparica. Dessas coisas que a classe econômica raramente proporciona, o encontro aconteceu cheio de boas surpresas. Ele era lindinho, falava inglês com o sotaque francês necessário e era curiosíssimo sobre o país e a culinária brasileira. Vinha de uma experiência sofisticada trabalhando num hotel de luxo em St Barth, encantado com a cor da água e o sabor dos frutos do mar de lá. Expliquei que a Bahia era outra conversa, uma mais autentica e radical, e ele assentiu entusiasmado, estava pronto para depenar arara e assar macaco. Perguntava sobre tudo sem nenhuma vergonha de parecer ignorante e eu respondia como se tivesse sido criada no Xingu. Brasília era a escala dele e meu ponto final e estávamos naquele charme todo, trocando telefones junto à esteira, quando me dei conta da mala que tinha separado para a viagem e congelei. A verdade é que, diferente da mala do Karl Ove, a minha era de um material que me parecia papelão, amarela, caindo aos pedaços, vintage, se quisermos parecer chiques. Minha mãe tinha a frasqueira fazendo jogo. Estava cheia de apostilas para o concurso e eu planejava abandoná-la no hotel e voltar com as poucas roupas que levei numa mochila. Como não tivesse cadeado e ficasse abrindo o bico o tempo todo, deixei o insistente rapaz do aeroporto em Nova York embalar com aquele assustador plástico verde. Levando tudo isso em conta e o príncipe Louis Vuitton que eu tinha ao meu lado, decidi disfarçar e fingir que a mala não era minha. Ficamos ali um tempão, aquele casulo verde rodando sem parar, ele com horário apertado para o outro vôo. Esperei que desistisse e sumisse na curva do saguão para rapidamente laçar a mala e meter-me num taxi. Nada mais saboroso entre nós aconteceu, mas, tempos depois, em Nova York, ele à frente da cozinha de um elegante restaurante francês, desses que exigem gravata e paletó, convidou-me para conhecer seu local de trabalho. Convoquei uma amiga e adentramos a Festa de Babette. A mais longa, surpreendente e refinada refeição que fiz na vida. Nem sei quantas entradas e pratos, ante-pratos, entre-pratos e pós-pratos o colega garçon nos trouxe com piscadelas cúmplices. Tivemos medo da conta que, afinal, não pagamos. Depois, embriagadas de diferentes cores de vinhos, fomos chamadas para visitar a cozinha, ele nos esperando sorridente, tão charmoso de avental e chapéu de cozinheiro, falando num português ininteligível, exibindo-se para os colegas. Ganhamos um champanhe e uma caixa com mini macarons cada. Tudo isso, estou segura, porque ele nunca viu a mala.