Acabou Chorare

Posted on 15 julho, 2020

Leio aqui boas histórias e lembranças gostosas de amigos com Moraes Moreira. Vai-se com ele um tanto da nossa alegria, já tão em falta esses dias. Minha historia, no entanto, vem na contramão desses relatos. Há muitos anos, fui assaltada uma noite quando esperava o amigo que me dava carona da faculdade. Numa época ainda ingênua que permitia certas liberdades, pedi a chave e fui me sentar no carro enquanto o amigo terminava alguma coisa na sala de aula. Quando os dois assaltantes chegaram armados, um em cada porta, eu ouvia Moraes Moreira numa fita cassete. Os caras meteram-se um no banco do motorista e o outro no do passageiro e me levaram espremida entre eles, recheio no sanduíche de bandidos. Saímos noite adentro, carro voando, eles nervosos, aos palavrões, sem saber para onde ir. Freavam bruscamente. Aceleravam fazendo barulho. Eu rezando para não encontrarmos nenhum carro de polícia porque seria inevitável identificar a cena e ninguém sairia inteiro dali. Algumas pessoas são sensacionais em situação de limite. Eu sou do tipo que emburrece. Por alguma razão, durante as quase duas horas que rodamos por São Paulo, minha única preocupação foi manter a musica rolando, como se fosse aborrecê-los ainda mais se o Moraes Moreira parasse de cantar. Assim, cada vez que a fita terminava, eu tratava de metê-la correndo no toca-fitas e ouvíamos novamente Pombo Correio e Preta Pretinha e Acabou Chorare. Inevitável que Moraes Moreira virasse a trilha daquele episódio. Mas não guardo rancor nem dele nem dos dois infelizes que fugiram levando minha bolsa e o carro do meu amigo e que foram presos depois. Eram tempos melhores.

Suzete

Posted on 15 julho, 2020

Sabia que ia apanhar na volta, mas o coração excitado não guardava memória do ruim. Meteu o vestido e a sandália, mais o perfume, os brincos, o batom e a sombra na bolsa. Contou o dinheiro certo para o ingresso e o ônibus. Não levou pão para não faltar em casa. Deixou os cinco filhos na vizinha, estavam combinadas desde o anúncio do show pela radio. Naquele dia, ela correu a pedir o favor e nem precisou explicar nada. Amado Batista era um nome colado no dela para qualquer um que a conhecesse. A Suzete. Os versos românticos e, sobretudo, o jeito dele cantar, dizia, era como se pegasse uma condução direto para um lugar de felicidade que ela só conhecia das cenas das novelas. Tinha uns discos ainda que não onde ouvi-los. Era com o radio que matava a vontade. Saiu de Tianguá à noitinha para voltar de Ubajara no ônibus das 4h da manhã, bem em tempo de desencontrar do plantão do marido na usina. Era a loucura a que ela tinha direito na vida. Contava isso arrastando o pano de chão com os pés descalços num rebolado exemplar e rindo com uns poucos dentes. Ficou pouco conosco, logo arrumou serviço de limpeza num teatro, terceirizado, mas bem pago, e foi. Não era bonita e o tempo e os maus tratos acentuaram seus traços pesados. Magérrima, com o cabelo black power num corte alto e quadrado, lembrava o jogador Capitão, da Portuguesa, como bem observou um cunhado durante um almoço em casa. No dia do tal show, ela desceu na rodoviária e ali mesmo trocou de roupa, maquiou-se e seguiu a pé numa lonjura desgraçada até o campo de futebol onde uma multidão já se apertava. Quando avistou as luzes altas dos refletores, sentiu uma emoção tão forte que, somada ao cansaço da caminhada, achou que ia desmaiar. Queria tomar alguma coisa, mas nem para água o dinheiro dava. Entrou Amado Batista, a musica explodindo nas enormes caixas de som bem ao lado de onde ela se posicionou. Pense numa mulher de sorte! Via ele assim de pertinho. Via o suor dele descendo. Vez em quando, seus olhares se cruzavam, achou que cantava para ela. Princesa, a deusa da minha poesia, ternura da minha alegria, nos meus sonhos quero te ver! O calor do aglomeramento era Amado Batista abraçando seu corpo todinho. Pediram mais e mais e mais. Exausta e contente, voltou manquitolando para a rodoviária, os pés pegando fogo, trocou de roupa e dormiu para só acordar no ponto final. Não teve desencontro. O marido na porta feito uma onça nervosa. As marcas da surra nas costas, que ela mostrava com tristeza e uma ponta de orgulho, ficaram para sempre. Apanhou de relho, as crianças assistindo tudo assustadas. Tantos anos depois, fugida do Ceará com os filhos, mais dois adotados em São Paulo, refletiu: tenho para mim que de apanhar estava dando mal exemplo para as minhas meninas e até para os meninos. Não o pai, que vive da raiva. Mas eu, que só conheço amar.

O jabuti

Posted on 15 julho, 2020

Na história, os filhos encontraram o jabuti da infância escondido há mais de trinta anos no jardim da casa do pai. Tanto se passou com cada um deles, conquistas e perdas, carreiras, casamentos, descasamentos, mudanças dramáticas, mortes, escolhas que resultaram positivas e negativas, grana, falta de grana. A magnífica casa, piscina, árvores e o parquinho, onde eles viveram até os pais se separarem, foi o cenário das brincadeiras, brigas e expressões afetivas naturais do crescimento. As memórias familiares vêm com recortes arquitetônicos, móveis e objetos que determinam a força daquele momento. As reformas ao longo do tempo vão indicando as mudanças na configuração emocional da família. Uma cozinha para mais ou menos gente, uma televisão gigante onde antes havia uma estante com livros, uma presunçosa divisória de vidro destruída a golpes de vassoura. E é ali que, uma noite, tantos anos depois, durante uma visita à propriedade, os três irmãos entram numa área de pedra entre as coluna da casa e reencontram o jabuti. O bicho está exatamente igual, o casco indicando a idade, talvez. Indiferente a tudo o que se passou com as pessoas, as loucuras, as profundas transformações, o envelhecimento, o destino de cada um, ele esteve como se para sempre no cantinho que gostava, alimentando-se de restos do lixo e da natureza. Em silencio. Mantendo-se vivo. Espectador do teatro humano. Assim, agora, as árvores na minha janela, alheias à tragédia que nós mesmos criamos e que nos destrói todos os dias, plantam-se firmes no chão como se nada houvesse. Como se o mundo não tivesse mudado completamente e milhares de pessoas não estivessem morrendo e outras tantas milhares não estivessem trancadas em casa com medo, reféns de uma praga invisível. As árvores atrás do vidro não se contagiam com o nosso mal-estar. Elas cumprem a sua obrigação existencial. Nunca deixaram de balançar com o vento e a chuva, de brilhar ao sol, de receber passarinhos que saltitam nos galhos e voam, de florir e colorir a grama quando as flores caem. Daqui a muito tempo, alguém vai se perguntar como foi que enfrentamos a pandemia, quem sobreviveu e quem se foi naquele momento. Quem era forte e quem estava frágil. Quem enlouqueceu. E as árvores lá fora vão empinar o nariz e chacoalhar as folhas, zombando da nossa pequenez.

Perdas da pandemia

Posted on 15 julho, 2020

Os tênis e as havaianas do lado de fora como sugere o manual da pandemia. E, então, já não estavam mais. Fiquei preocupada. Perguntei à síndica se não podíamos recuperar as imagens da câmera de segurança. Ela veio com a má notícia. Um funcionário do turno da noite desceu as escadas distribuindo os jornais e tinha levado os calçados. Era um senhor que trabalhava há mais de 20 anos no prédio, nenhum incidente, nenhuma queixa antes disso. Disse que ligou interpelando e que ele ficou desesperado. Mostrou as mensagens de áudio dele se desculpando e dizendo que pegou porque achou que eram para doação. Nervoso, gaguejando, pedindo perdão. Era difícil acreditar, há meses havia calçados nas portas de quase todos os apartamentos. Ela estava brava, desapontada. Perguntou se eu concordava que ele devolvesse as coisas diretamente para mim e não estendêssemos o caso. Eu disse que sim, claro. E comecei a sofrer. Não queria que ele se humilhasse. Não queria que explicasse as razões que o levaram a pegar os sapatos. Não queria ter que lidar com as dificuldades dele. Não queria ouvir nada porque sabia que tudo ia doer em mim. Já nem queria os sapatos de volta. Pedi que evitasse a situação, mas ela reafirmou que era importante para ela, para ele e para mim.
A campainha tocou umas dez da noite. Um senhor de cabelos brancos, uniforme, máscara, digno. A sacolinha de supermercado com as coisas. Colocou a mão sobre os olhos, balançava a cabeça e soluçava. Pediu desculpas chorando, explicou o inexplicável. Eu chorando, falei de Deus, nem sei porque. Tinha que ser alguma coisa maior do que nós dois ali, a nossa humanidade pequena. As máscaras molhadas. Queria poder abraçá-lo para aliviar as nossas culpas. A coisa mais triste do mundo!

O edredon

Posted on 15 julho, 2020

Este edredom, que se chamava de acolchoado, tem mais de 30 anos. Ganhei quando me casei pela primeira vez. Depois ninguém nunca mais deu presente porque é isso mesmo, cada um que se vire com seus sucessivos casamentos, que leve metade da casa ou que, como eu, na partilha opte sempre pelos panos de prato, aqui nunca faltarão, graças a Deus. “E digo mais, as filhas e os panos de prato vão comigo!” E tem o fiel edredom, que não diz nada, não toma partido, mas muda de cama também. Vem atrás com esse ar caipira, de algodão, sem modernidades, nem leveza, sem penas disso ou daquilo. Tem que ser lavado a seco ou no tanque e colocado no sol para secar. Com o tempo, os retalhos foram se soltando e a cumplicidade se paga quando me deito, ligo a televisão e remendo as suas descosturas. Uma conversa íntima e silenciosa de acolhimento mútuo. Pobres de nós, envelhecendo a olhos vistos, segurando os retalhos um do outro, inteiros até o fim. Alguma dignidade, eu digo. Ele assente, solidário.

Slides

Posted on 15 julho, 2020

Às seis da tarde, minha irmã ligou o projetor, ajeitou o foco e começou a passar os slides exatamente como papai fazia aos domingos quando éramos pequenos. O carrossel girou parando em cada foto, nossas vidas seguindo de soquinho, dias, meses, anos, numa sucessão de registros descomprometidos e tão fundamentais. Durante a semana, ela anunciou animada que tinha encontrado o equipamento num armário junto com as caixinhas de slides organizadas por ele, meu pai, o fotógrafo. Combinamos que a exibição se daria durante o nosso encontro familiar semanal, via internet agora na quarentena. Meus irmãos, cunhados, filhos, sobrinhos, papai, gatos e cachorros atravessando a tela do computador. Metade é da turma que acha que tem que falar aos gritos olhando fixamente para a câmera. A outra metade é indiferente à solenidade do momento e age como se estivéssemos num Big Brother doméstico. Um facho de luz corta o escuro da sala dela, o som barulhento do mecanismo aquecido chega ao lado de cá e faz-se o milagre. Estávamos novamente juntos, pijaminhas de flanela, olhos colados na parede magica, a espera vaidosa. Pude sentir o cheiro adocicado que a memória desse momento trazia. Sob o movimento manual da minha irmã, surgem imagens, algumas desbotadas, outras bem definidas, da infância e adolescência passadas em grande parte em Guaxupé. Somos meninas e meninos, irmãos e primos sorridentes brincando no quintal, na fazenda, na piscina do clube. Estamos fantasiados no Carnaval, vestidos iguais em cores diferentes numa festa de aniversário, excitadíssimos diante do Papai Noel na casa dos avós. E então, dançando junto à fogueira na festa junina da roça, montados numa carroça puxada pela mula, carregando uma pomba no colo, fazendo carinho num cachorro. Brigamos nos corrigindo os nomes dos bichos. Quem se lembra? Alguém está escondido atrás do pé de café. Um segura a mão da minha mãe. Que linda, a mamãe, observamos com saudade dela. Assistimos as cenas aos gritos, rindo dos nossos sorrisos banguelas, absurdos cortes de cabelo, as botinhas para pés chatos que minha irmã odiava, um machucado no joelho, o cigarro na mão do papai, uma fartura de avós, a roupa herdada do mais velho envelhecendo nas fotos dos menores. Minha irmã reclama que a minha boneca falava e a dela era muda. O tempo passa e somos adolescentes em calças boca de sino, tamancos, batas, o irmão de macacão jeans. Estamos em caras e bocas, eu, magrela na praia, fazendo charme para o salva vidas. Uma irmã de gargantilha indiana e saltinho. A outra com a franja a la Ronnie Von. Mini blusas e mini saias em mini mulheres. Vou trocar o carrossel, ela anuncia. Acende a luz e estamos de volta às nossas circunstancias presentes, cada um com a sua fatia da historia na mão. Apartados pelo momento. Deixa para outro dia, pedimos. Ficou tarde. Já não podemos regressar nem seguir. A vida parou para a gente voltar a ela.

O sapateiro

Posted on 15 julho, 2020

Dei com a porta da metal baixada e o aviso escrito em caneta Bic numa folha de caderno: LUTO. VELÓRIO ÀS 13h NO CEMITÉRIO DA VILA ALPINA. Fiquei parada com a sacolinha na mão sem saber o que fazer. Dois homens conversavam no muro ao lado e um deles, como se percebesse o meu espanto, anunciou: Foi ele mesmo, o sapateiro que morreu! Aproximei-me e eles seguiram lamentando a morte súbita do conhecido. Não era velho, embora tivesse mãos de quem viveu além da idade. Me chamava a atenção o desgaste delas e enquanto ele manipulava um sapato para explicar o serviço, eu sempre me perdia em pensamentos alucinógenos sobre veias saltadas e peles transparentes quadriculadas. Foi sapateiro da família desde sempre e mesmo depois que me casei e mudei do bairro continuei a entregar a ele todos os problemas envolvendo couro e zíper e sola. O dentista da clínica na esquina havia me contado que, certa vez, em cima da hora de um casamento, não encontrando um pé de sapato, correu até lá para pedir socorro lembrando-se de ter visto diversos pares esquecidos por clientes que nunca mais voltaram. O sapateiro mergulhou numa gruta escura cheirando a graxa e voltou com um par de couro marrom, no seu numero, cadarço, meia sola novinha, já amaciado e o vendeu por um trocado. Meu ex marido, nervoso com um cadeado de mala que não abria, sacou o estilete e sob os meus gritos de horror, rasgou o zíper de ponta a ponta e foi ele, o sapateiro, quem costurou de volta, sem emitir nenhuma palavra sobre a cena terrível que eu descrevia. Falava muito pouco, apenas o necessário para fazer o diagnóstico da peça. Quando terminava, rabiscava num pedacinho de papel, caprichando no oito e no dois, a data de quando estaria pronta e o valor.
Fiquei perdida com aquela informação crua pregada na porta fechada. Sapateiro não morre. É uma profissão encantada que existe para manter a gente perto do chão. Para a gente não enlouquecer. Para não perder a medida da realidade. Fiz uma pirueta e saí caminhando sem rumo com a sacolinha e a sandália com o salto gasto que nunca mais vou usar.

Um Natal animal

Posted on 15 julho, 2020

Meus avós eram católicos, ele mais do que ela, para quem os rituais sagrados traduziam-se ao que lhe dava prazer. De olhos fechados, como se em transe, no piano, em brincadeiras com o gato do momento ou num desfile de histórias proibidas, entre verdade e mentira, daquelas que só se confessam aos netos. Aos domingos, rigorosamente, uma cervejinha gelada.
Mas meu avô, que ela só chamava pelo sobrenome, o Prado, na sua seriedade e disciplina, ia à missa, mantinha sempre acesa uma vela aos pés de Santa Rita, rezava antes de dormir e ao se levantar, o crucifixo pesado sobre a cama. Nunca entendi esse costume dos antigos, Jesus ali pregado no quarto, ensanguentado, morrendo e constrangendo o casal. Médico aposentado, vovô atendia os pobres de graça num consultório montado no salão da igreja do bairro. Dava injeção, remédio, conselho. O cônego Olavo, gerente da paróquia, almoçava na casa deles uma vez por semana. Chamava a minha atenção a sua mão extremamente branca com um anel grande e um tique nervoso que sacudia o seu rosto de quando em quando. Eu tentava ir nesse dia. Era muito emocionante estar na mesa com aquela figura santa numa situação tão mundana. Vê-lo em trajes civis, sem o paramento religioso, como se encontrasse Elvis de sunga, na praia. Observar a autoridade maior da missa, aquele que dava as ordens, senta, levanta, ajoelha, canta, perguntando qual era o seu lugar na mesa. Reconhecer a voz grave que ecoava na nave agora pedindo para passar o feijão.

O Natal era, claro, a principal reunião familiar e a noite mais emocionante do ano para nós, as crianças, que corríamos excitadíssimas pela casa esperando a chegada do Papai Noel. Tradicionalmente, antes da ceia, vovô sacava o improviso do bolso, um longuíssimo discurso em rebuscado estilo parnasiano com sinônimos eruditos para as palavras cotidianas que ele pesquisava no dicionário e redigia em tinta verde. Quase uma oração louvando a data com alusões ao Menino Jesus e a os Reis Magos, que emocionava os adultos e nos matava de sono. Depois comíamos, abríamos os presentes, minha avó tocava Beethoven e lá pelo fim da noite, vinha o Bife, batido a diversas mãos, como ela dizia com pena do piano. Papai Noel foi encarnado sucessivamente por varias gerações da família até a ultima criança que acreditou no Bom Velhinho. Um ano, para fugir à regra dos encontros anteriores, alguém sugeriu que nos fantasiássemos de bicho. Não seria desrespeitoso, mentiu, mas uma celebração inocente e pura como os animais que daria novo vigor ao nosso encontro. Assentiram. Sorteamos secretamente os bichos e ficou acertado que cada um vestiria a fantasia correspondente. Vovô Prado, exímio costureiro, fez a própria roupa de borboleta com asas de arame e renda transparente. Os tios atravessaram a cidade, o porco na direção, a vaca ao lado, um carneiro e um jacarezinho atrás. O primo veado. A prima sensual chegou miando numa malha justa. Uma libélula morena de um metro e oitenta e voz grossa atravessou a sala. Éramos macacos, cachorros, galinhas e coelhos ao redor da mesa ouvindo a oração declamada por meu avô com as asas respeitosamente escondidas dentro do paletó de linho. Minha avó, uma zebra entusiasmada ao piano. Cantamos, relinchamos, cacarejamos, uivamos e dançamos onomatopaicamente. Na semana seguinte, quando o padre veio almoçar e perguntou como tínhamos passado o Natal, meu avô olhou duro para mim, assumiu o ar sério de sempre e respondeu: Correu tudo bem, com a graça de Deus.

A fotografia

Posted on 11 novembro, 2019

Minha mãe tinha a necessidade de se mostrar e à sua família ao mundo como se fossemos perfeitos. Ela tentava disfarçar os dissabores numa fotografia perfeita. Logo cedo, eu aprendi a esconder os problemas até que estivessem resolvidos e aí, sim, às vezes, eu contava. Uma vez, engoli uma bala dura na escola e fiquei quietinha com aquela dor me machucando a garganta até o mal estar passar porque tinha medo de morrer e desapontar meus pais. Quando me separei, com duas filhas pequenas, só deixei a família saber quando já tinha outro pretendente, com qualidades suficientes para substituir o anterior.